3ª Parte- A desvalorização desportiva que leva a ser
considerado egocêntrico
Como escrevi, Cristiano Ronaldo tem mais
assistências que Messi na Liga dos Campeões e mais do dobro dos golos a partir dos
quartos de final.
Jogou em clubes com menor orçamento que
Messi e o seu país teve quase 4 vezes menos nomeações que o país de Messi em
médios e avançados entre os melhores jogadores do mundo a jogar na Europa entre
2007 e 2020.
No basquetebol no tempo de Michael Jordan
não havia dúvidas quem era melhor. No século XXI não existem dúvidas que Tom
Brady é o melhor da NFL. Na natação Michael Phelps não têm comparação, tal como
Usain Bolt no Atletismo.
Porque motivo Cristiano Ronaldo não goza
do mesmo estatuto?
Porque o futebol ao contrário de todos os
outros desportos, não avalia os seus protagonistas enquanto atletas nem a sua
capacidade de aumentar a probabilidade da sua equipa vencer ou o seu rendimento
desportivo.
O futebol mesmo para os especialistas é popular,
não privilegia o mérito, privilegia aquilo que mais facilmente é conotado como
espectáculo em prol daquilo que é mais difícil de executar. Não avalia a
capacidade do adversário e estabelece como métrica um evento (Mundial) em que
os protagonistas dependem da sorte do país em que nasceram ter ou não grandes
jogadores para fazerem combinações de jogadas.
Cristiano Ronaldo, tal como Michael
Jordan, Tom Brady, Usain Bolt ou Michael Phelps é obcecado pelo sucesso.
Trabalha no limite, luta arduamente desde os 6 anos de idade para ser o melhor,
quando a sua equipa está em maiores dificuldades ele sente que têm de estar no
melhor momento. É minucioso com todos os detalhes e trabalha sempre em busca da
perfeição.
Por isso ele não admite que alguém com
muito menos rendimento que ele possa ser considerado melhor.
Por isso ele sente-se injustiçado porque
nos últimos 30 anos no desporto ninguém foi tão desvalorizado desportivamente
como ele.
Phil Jackson no final dos treinos dos
Chicago Bulls fazia um jogo curto entre os jogadores. Muitas vezes acontecia
que a equipa de Michael Jordan estava a vencer e o treinador decidia mudá-lo
para a equipa que estava a perder. Quase sempre com o seu espírito de
reviravolta Michael Jordan conseguia impulsionar os colegas para a vitória.
Um simples exemplo que mostra que os
melhores desportistas de sempre veêm-se nos momentos mais difíceis.
Na Liga dos Campeões a partir dos
quartos-de-final Cristiano Ronaldo em 13 eliminatórias teve as suas equipas em
posição desfavorável. Em 6 conseguiu marcar. Já Lionel Messi teve a sua equipa
por 14 vezes em situação de desvantagem na eliminatória e apenas por 2 vezes
conseguiu marcar, sendo uma de penalty.
Cristiano Ronaldo
|
Golos |
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
Desvantagem |
4 |
4 |
0 |
8 |
|
Igualdade |
7 |
2 |
2 |
11 |
|
Vantagem |
14 |
7 |
2 |
23 |
|
TOTAL |
25 |
13 |
4 |
42 |
|
Eliminatórias
equipa em desvantagem |
|||
|
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
5 |
6 |
2 |
13 |
|
Eliminatórias
que marcou |
|||
|
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
3 |
3 |
0 |
6 |
Messi
|
Golos |
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
Desvantagem |
2 |
0 |
0 |
2 |
|
Igualdade |
3 |
2 |
1 |
6 |
|
Vantagem |
7 |
4 |
1 |
12 |
|
TOTAL |
12 |
6 |
2 |
20 |
|
Eliminatórias
equipas em desvantagem |
|||
|
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
8 |
6 |
|
14 |
|
Eliminatórias
que marcou |
|||
|
QF |
MF |
F |
TOTAL |
|
2 |
0 |
|
2 |
Qualquer equipa do mundo que está a vencer
uma eliminatória da Liga dos Campeões contra um clube de Ronaldo ou Messi é
natural que baixe as linhas e aposte mais na transição e contra-ataque.
Com menos espaço para jogar, quase sem
possibilidade de progredir com a bola, rematar e driblar adversários é
fundamental a capacidade de finalização ao primeiro toque na área. Este é um
fundamento que Cristiano Ronaldo é muito melhor que Messi e por isso nestas
circunstâncias conseguiu ser ao longo da história muito mais preponderante para
o sucesso das suas equipas.
Cristiano Ronaldo quer bater todos os
recordes, por isso antes do Mundial assumiu quer estar no Euro2024. Não gere a
sua imagem em prol de sair no auge. A sua estratégia de falar sobre os seus
problemas no Manchester United é semelhante quando o brasileiro Ronaldo fez um
penteado novo no Mundial2002 para distrair a imprensa. Na altura o penteado
desviou as atenções sobre os companheiros e fez recair sobre ele o protagonismo
da seleção brasileira que estava a ser muito criticada depois de um apuramento muito
sofrido.
As críticas ao onze de Fernando Santos
diminuíram drasticamente desde a entrevista de Cristiano Ronaldo. Portugal
obteve o terceiro melhor resultado de sempre na competição. Parece que não foi melhor por
culpa de Cristiano Ronaldo.
Cristiano Ronaldo não precisa de Portugal
para nada e antes, durante e após este Mundial tem sido alvo de duras críticas
por parte dos portugueses e da imprensa nacional. Será este o exemplo que
estaremos a dar para a nossa próxima grande estrela abandonar a seleção quando
fizer 30 ou 32 anos, para fugir da crítica?
Já Lionel Messi em 2016 após perder a
final da Copa América, aos 29 anos foi o primeiro a abandonar o barco, ao
escrever uma carta a anunciar a sua retirada da seleção. Quando o país mais
precisava dele ele decidiu fugir.
Após negociações e dadas as condições que
o jogador pediu decidiu voltar atrás.
Convém recordar que um estudo de marca em
2018 revelou que o tenista Juan Martin del Potro que nunca foi número 1 do
Mundo era mais popular na Argentina do que Messi.
Após ter sido expulso no jogo de terceiro
e quarto lugar da Copa América de 2019 Messi afirmou que a “Argentina não tem
de fazer parte dessa corrupção”. Neste momento ele ganhou o público argentino.
Nada que admire num país que valoriza mais
uma mão de um jogador que uma jogada que finta 4/5 adversários e percorre mais
de metade do campo com a bola. Um país que recentemente viu uma final da Copa
Libertadores transferida para Espanha fruto do comportamento de adeptos dos
dois seus principais clubes.
Neste Mundial Messi após todo o
favorecimento que o árbitro lhe deu no Argentina-Países Baixos afirma “é o pior
árbitro do Mundial e não pode arbitrar mais”.
Lionel Messi acabou o Mundial e foi
venerado por todo o mundo, árbitros incluídos.
Lionel Messi pode dizer o que quer,
insinuar o que quer, porque após ter ganho por completo o endeusamento do seu
povo argentino ganhou uma dimensão mítica no desporto rei, apenas comparado com Maradona.
No Basebol (filme de Clint
Eastwood- As voltas da vida), Basquetebol, Futebol Americano, Andebol, Voleibol
qualquer desportista para ser eleito o melhor do mundo têm de o melhor
rendimento dos momentos mais difíceis do jogo. Na história destes desportos os
maiores protagonistas não fogem das dificuldades e nem acusam os árbitros
quando o seu rendimento não é o suficiente para levar as equipas às vitórias. Mas
o futebol é um fenómeno completamente à parte.
Por isso nos livros de história a
superação de Ronaldo ficará injustamente quase apenas conotada pelos seus
registos goleadores em bruto (sem comparação com os adversários e fases das
competições).
A realidade, essa, é completamente diferente, mas ninguém quererá saber disso.
P.S.: Por isso mais do que ler livros ou ver documentários eu pessoalmente prefiro ver jogos completos de futebol desde a década de 60. Porque talvez o mais importante esteja ainda por ser contado.

