terça-feira, 30 de novembro de 2021

Ricardinho- O mágico carregador de pianos em prol do colectivo (Parte II)

 


3- Comparação com Falcão


O Desporto Total não pretende apresentar as virtudes de um e de outro e eleger afinal quem é melhor. Mas sim contextualizar a comparação dos dois maior diamantes lapidados da história da modalidade.


A comparação entre Falcão e Ricardinho deve servir essencialmente para o futsal entender, mais uma vez, o enorme potencial de marca que não aproveitou.


Estes dois ilusionistas em toda a carreira em competições oficiais apenas participaram simultaneamente nos Mundiais de 2004,2008,2012 e 2016.


Portanto apenas de 4 em 4 anos tivemos estes dois jogadores a jogar a mesma competição. Será que se imagina Lionel Messi a jogar a Liga dos Libertadores e termos de esperar 4 anos para num Mundial, disputar a mesma competição que Cristiano Ronaldo.


Neste contexto é muito difícil comparar em anos sem mundial jogadores que jogam competições totalmente diferentes em continentes diferentes perante equipas/países totalmente diferentes e quase toda a totalidade de jogadores colegas e adversários totalmente diferentes.


Se Ricardinho jogasse na Europa de 2010 a 2013 poderia ter 8 Bolas de Ouro e Falcao apenas 2.

Mas os brasileiros podem sempre afirmar que se Falcao jogasse na Europa outro galo cantaria e ele próprio podia ter sido o melhor do mundo em 2005, 2007,2008 e 2009, anos em que venceu a Libertadores.

Portanto seria bom que tal como a generalidade dos desportos olímpicos colectivos, o futsal encontra-se de forma sistemática competições de clubes e seleções onde os melhores jogadores possam estar simultaneamente a competir algo fundamental para o crescimento da modalidade.

 4-Síntese da carreira: virtuosismo, visão de jogo e capacidade defensiva

Quando Ricardinho se estreou na seleção o futsal era jogado de uma forma mais lenta. Vários jogadores faziam 35 minutos de jogo. O menor ritmo de jogo e pressão sobre o portador da bola permitiu com que o seu virtuosismo saltasse mais facilmente à vista.

Com o passar dos anos, aprimorando a técnica fruto de um trabalho individual incansável: os cabritos, golos utópicos e dribles desconcertantes foram cada vez mais fazendo as delícias dos amantes da modalidade.

Em 2007 na Meia-Final do Europeu Ricardinho marca um golo de bicicleta a Luís Amado, considerado por muitos analistas, o melhor guarda-redes de sempre da modalidade.

Desde 2010 o futsal tornou-se cada vez mais um jogo colectivo e dinâmico com maior troca de bola entre jogadores e menor progressão individual com a bola. Mas Ricardinho não piorou o seu nível, bem pelo contrário. Continuou a decidir bem e muito rápido vencendo num contexto que lhe poderia ser menos favorável 5 vezes o título de melhor jogador do mundo.

Em recente conversa no Canal 11, a sua primeira treinadora Carolina Silva, disse que a primeira coisa que lhe saltou à vista foi a sua visão de jogo.

Neste Mundial, Ricardinho foi o jogador com mais assistências, que mais jogadas de perigo criou, mesmo depois do calvário da lesão que o poderia ter hipotecado de participar nesta fase final.

Porque mais importante que fazer bem é sempre decidir bem e Ricardinho sempre teve consciência das suas capacidades utilizando-as em prol do colectivo. Ao longo da sua carreira é muito esporádico vê-lo tentar o drible em situações que colocassem a equipa em perigo ou optar pela jogada individual prejudicando o colectivo.

         A intensificação do 5x4 juntando ao elevado ritmo do jogo fez com que cada vez mais os jogadores mais criativos de futsal tivessem que ser muito criativos. Ricardinho tornou-se uma pedra essencial na manobra defensiva da seleção nacional, nunca sendo retirado de campo em função da equipa passar a defender mais, mas sim pelo desgaste físico ou opção estratégica global.

         Ricardinho soube ao longo da carreira dar às suas equipas aquilo que elas mais necessitavam, adaptando-se às mudanças das tendências do jogo e da sua condição física mas nunca deixando de estar no topo de todas as competições internacionais que disputou.

       Uma regularidade quase ímpar no desporto mundial, só ao alcance de um predestinado incansável pelo trabalho e em aprender com todos os intervenientes directos (colegas e outras pessoas do futsal) e indirectos (vendo outros desportos e aprendendo com jogadores de Freestyle) para que com os pequenos detalhes fazer as grandes diferenças.

         Mais do que a qualidade patenteada em campo fica a atitude de um homem sempre em busca de reinventar soluções engradecendo a sua modalidade.

         Seria portanto justo que o futsal entendesse o legado do seu maior embaixador de sempre e de uma vez por todas fizesse as alterações necessárias para se tornar um desporto mediático universal e uma marca reconhecida nos 4 cantos do mundo. Este seria sem sombra de dúvidas a melhor prenda que Ricardinho poderia ter. 

2-    

sábado, 20 de novembro de 2021

Hóquei em Patins: Um desporto de qualidade de século XXI ainda como marca dos anos 80


       A falta de intensidade e de entrega ao jogo na vitória Espanha por 3-1 frente à França, que apurou as duas seleções para a final do europeu colou a nu todos os problemas actuais do hóquei em patins.

         Os portugueses estão desiludidos pela falta de fair-play de ambos os intervenientes e dizem que isto não contribui para o crescimento do hóquei.

         Mas como sempre, nos últimos tempos, várias são as vozes críticas pela forma como a modalidade é gerida, mas escassas ou quase nulas são as soluções de mudança que façam evoluir a modalidade.

         O primeiro grande erro passa por assumir um modelo competitivo de todos contra todos, com 6 equipas, sem meias-finais e em que as 2 piores seleções do ranking europeu não se defrontem na última jornada. Fazer sorteio puro e não em função dos resultados anteriores é um erro primário que potencializa que a meritocracia desportiva possa não ser efectivada. Um Portugal-Espanha e França-Itália na última jornada diminuiria quase de certeza este tipo de situações insólitas. Mas tudo se resolveria se a mesma competição tivesse meias-finais e tivesse começado um dia antes.

         Neste caso concreto é fácil perceber onde esteve o erro. Na aceitação dum modelo competitivo completamente ultrapassado, inexistente em qualquer desporto colectivo no século XX. Mas o mais grave é que os intervenientes não têm consciência disso.

         Tal como outras mudanças estratégicas ainda não foram efectivadas para catapultar a modalidade para outro nível:

   - Maior autonomia do hóquei em patins dentro das federações nacionais e internacionais de patinagem para se poder potencializar

       - Ausência de protocolos internacionais em que dirigentes e treinadores credenciados possam desenvolver a modalidade em países que não a praticam ou que o fazem de um modo completamente amador

      - Jogos internacionais de topo em que as marcas do campo coincidem com outras modalidades, o que prejudica a transmissão televisiva

      - Manutenção da cor da bola preta que dificulta a visualização

      - Design de publicidade e pavilhões quase iguais aos anos 80

       - Preços muito caros no equipamento

   - Guerras entre clubes e federação europeia que impedem que os melhores clubes participem na Liga dos Campeões

O hóquei em patins é um desporto que envolve muito menos dinheiro que os principais desportos olímpicos colectivos. O Barcelona o ano passado não chegou aos 4 milhões de orçamento na modalidade. Portanto mesmo nestas condições, sem grande valor de prémios monetários foi possível França e Espanha quebrarem a intensidade do jogo para se apurarem as duas para a final.

Quer obrigar os outros a ter ética e respeito é uma realidade dos anos 80 que jamais pode ser válida na terceira década do século XXI.

O desporto mundial cresceu e regulamentou-se, estabeleceu critérios objectivos para impedir que estas situações ocorram.

O hóquei em patins terá de fazer o mesmo caminho. Pois se nem estes princípios básicos conseguir albergar e continuar a pensar apenas na boa vontade continuará estagnado como um valor de marca de anos 80 quando caminhamos para o meio do século XXI.


 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Ricardinho- O mágico carregador de pianos em prol do colectivo (Parte I)

 


        A retirada de Ricardinho da seleção portuguesa deixa o futsal internacional muito mais pobre.

         Mais do que falar que na senda internacional de seleções se acabaram os coelhos da cartola do eterno mágico e que todo o seu perfume exclusivo deixará de ser espalhado pelas quadras mais emblemáticos do mundo, o Desporto Total lança um olhar global à carreira de Ricardinho, explicando o que o futsal pode aprender para finalmente para dar o passo seguinte rumo à afirmação no panorama desportivo internacional.

   1-Carreira internacional de clubes de Ricardinho

 

Até ao momento presente Ricardinho participou em 11 edições da Liga dos Campeões de Futsal. O astro português venceu por três vezes a competição. Por duas vezes foi finalista e por uma semifinalista.

Onze participações e seis semifinais é manifestamente pouco para quem é considerado quase unanimemente o melhor jogador de sempre qua actuou na prova.

Cristiano Ronaldo por exemplo já participou em 18 edições da Liga dos Campeões e por 11 vezes esteve nas meias-finais.

Tendo o futebol um contexto de competitividade superior, como se explicam estas diferenças?

No futsal, só a partir da época 2017/2018 passaram a competir 2 equipas por país, o que impossibilitou Ricardinho de participar em 2005, 2007 e 2014 mesmo estando a actuar na Europa.

Todos os vencedores da Liga dos Campeões de futsal disputaram a competição no máximo em 3 fins-de-semana por cada época.

Mesmo actualmente com 2 equipas dos 4 principais países, não existem mais de 10 equipas em condições de proporcionar excelentes espectáculos desportivos.

Portanto não sendo uma presença assídua no calendário e não tendo muitos jogos de grande qualidade a competição está longe de alcançar um valor de mercado minimamente comparável com o Andebol e Voleibol, por exemplo.

Este facto faz com que a participação na Liga dos Campeões não seja uma prioridade na carreira dos atletas.

Por tudo isto foi possível, um clube japonês em 2010 oferecer a Ricardinho um ordenado que nenhum dos tubarões europeus estava disposto a oferecer e portanto de 2011 a 2013 o melhor jogador do mundo estava fora da competição.

Ricardinho sentia-se muito bem tratado do Japão e só voltou à Europa porque sabia que só assim poderia voltar a ser o melhor jogador do mundo.

Quem perdeu mais com tudo isto foi a própria modalidade. Que perdendo o seu principal intérprete não se potencializou. Em 2018 na altura em que foi eleito o melhor jogador do mundo pela última vez auferia cerca de 300 mil euros anuais. Este valor é quase 10 vezes inferior ao salário de Mikkel Hansen-Andebol (2,5 milhões de euros anuais).

Ricardinho é actualmente o terceiro melhor marcador de sempre da Liga dos Campeões e 95% dos consumidores portugueses da final do Mundial de Futsal não saberão quem são os dois melhores marcadores: André Vanderlei e Lúcio.

 

  2-Carreira internacional de Ricardinho nas seleções

 

Se a Liga dos Campeões nunca conseguiu ter um protagonismo sistemático no futsal internacional as competições de seleções assumiriam um papel preponderante para a divulgação da modalidade.

Contudo, os Mundiais apenas se realizam de 4 em 4 anos e os Europeus de 2 em 2 até 2018 e de 4 em 4 desde então.

Ricardinho marcou 3 golos à Itália nos quartos-de-final do Mundial de 2012, foi o melhor marcador do Mundial de 2016 e o melhor jogador do mundial de 2021. Foi ainda melhor jogador do Europeu de 2007 e 2018. Em 2012,2014 e 2016 realizou excelentes europeus. Em 2014 marcou quando fomos eliminados com a Itália e em 2016 bisou contra a Espanha na mesma circunstância.

Portanto esteve sempre em grande forma nas grandes competições, mas Portugal infelizmente até 2018 nunca conseguiu vencer nenhum troféu. Em 2011 e 2013 Ricardinho não disputou qualquer competição internacional. E neste contexto percebemos que face ao seu valor poderia ter alcançado resultado ainda melhores.


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte IV)

 


Mentalidade

         Carlos Lopes frisou que os Jogos Olímpicos de Munique1972 foram fundamentais para a sua carreira. Nestes Jogos Olímpicos não alcançou finais mas segundo o próprio, poder ter observado o comportamento dos atletas de topo nas mais variadas disciplinas do atletismo, fê-lo entender o que precisava para chegar lá. Começou a construir uma ambição sem precedentes no desporto português. Em 1976 tornou-se o primeiro português campeão do mundo de uma modalidade olímpica. Não se revia na mentalidade de “ir apenas para participar”, porque o seu único objectivo “era ganhar”.

         Por isso em 1983 a Maratona começou a fazer parte do seu calendário de provas, porque sabia que era nesta disciplina que tinha mais possibilidades de ser campeão olímpico, por mais que preferisse correr os 10 mil metros.

      Em Los Angeles 1984 abdicou de estar na Aldeia Olímpica em prol da sua preparação ser a melhor possível. Mesmo após a glória olímpica não quis terminar a carreira. Queria mais porque achava que podia mais. Em 1985 bate o recorde mundial da Maratona e sagra-se no Jamor, tricampeão mundial de corta-mato, sendo o último europeu nascido na europa a fazê-lo.

         Carlos Lopes simultaneamente teve a humildade de quer aprender e escutar adversários estrangeiros, colegas de treino, treinador ao mesmo tempo que desenvolveu um espírito de ambição totalmente pioneiro na história do desporto olímpico português. Uma garra, resiliência e sacríficos ímpares que criaram um legado que hoje beneficiamos.

         Apesar de a partir dos 30 anos praticamente nenhum atleta tenha criado resultados de relevo, Carlos Lopes não quis sabes das tendências. Foi contra a história do atletismo e do desporto nacional e realizou feitos notáveis em todas as perspectivas imagináveis.

         Quem vê as cerimónias de pódio na Canoagem vê Fernando Pimenta com o mesmo espírito a fazer a selfie, seja em 2013 em que não era normal ganhar ou em 2021 em que já é um histórico da canoagem mundial. Sempre respeitou os adversários e manteve a mesma postura independente do estatuto que tinha.

         Diz que Balint Kopasz é o melhor competidor possível, um grande amigo fora de água, e que o faz evoluir.

         Fernando Pimenta ganhou uma medalha de bronze na Canoagem inédita num evento individual olímpico para Portugal. Mas isso não o fez perder o foco. Regressou o mais cedo possível a Portugal para poder estar com a família e ter um merecido curto descanso. Porque ainda haveria algo mais para ganhar. Aceitou prolongar a época por mais um mês e fez história na Dinamarca sagrando-se o primeiro bicampeão mundial de K1 1000 metros desde 2010.

         Em Tóquio2020 falou que não descarta participar em Brisbane2032, aos 43 anos. Apesar de todo o sucesso, quer tal como Carlos Lopes fazer mais e melhor, escutando os outros e tendo uma sede de vitórias como se ainda não tivesse alcançando o primeiro grande título.

Conclusão

         A história destas grandes figuras do desporto português como verificamos é muito similar em todas as vertentes. Pela lógica poderíamos dizer que Fernando Pimenta vai ser campeão olímpico. Futurologia é algo que ninguém pode fazer com um grau absoluto de certeza.

         Carlos Lopes não venceu nenhum europeu, mundial ou Jogos Olímpicos nos 10000 metros e não deixou de ser capa do L’Equipe de aparecer nos Simpons e de ainda ser um dos maiores fundistas da história apesar de no espaço mediático outros nomes injustamente estarem à sua frente.

         Independentemente do desfecho olímpico da carreira de Fernando Pimenta, têm já o seu nome consagrado na história da Canoagem, a Federação Internacional já o apelida de “lenda”.

         Infelizmente pelo facto da canoagem de velocidade estar completamente fora do espaço olímpico mediático é quase impossível ter um reconhecimento olímpico internacional condicente com o seu valor, mas isso em nada abala tudo o que nos deu e dará.

         Carlos Lopes e Fernando Pimenta, dois grandes atletas, que pelo seu percurso, maneira de estar, capacidade pioneira, ambição contra todas as tendências históricas deixam um marco e um legado indubitável no desporto português. Que aprendamos com eles para que o nosso desporto e sociedade seja cada vez melhor.

         Obrigado!

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte III)



Críticas internas

         Após ganhar a medalha de prata em Montreal em 1976 e de ser vice-campeão mundial de corta-mato em 1977 Carlos Lopes viveu um período de quebra.

         As sucessivas lesões fizeram com que desde 1978 a 1981 não tenha conseguido nunca figurar no top10 das listas anuais, participar nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 ou sequer fazer um top10 nos Mundiais de Corta-mato. Várias foram as vozes internas que sentenciaram a sua carreira.

         Imune às opiniões dos outros o fundista nacional foi campeão olímpico na Maratona em 1984, bateu o recorde do mundo e foi líder anual em 1985, fez a terceira melhor marca do ano em 1983. Nos 10000 metros fez a 2ª melhor marca do ano em 1982, a melhor em 1983 e a 2ª em 1984. Foi ainda a tempo de ser campeão do mundo de corta-mato por duas vezes e de conquistar mais uma medalha de prata.

         Após ganhar a medalha de prata em Londres2012 no K2 1000 metros em conjunto com Emanuel Silva, Fernando Pimenta viveu um período de problemas internos com a federação portuguesa de canoagem. Queria participar no K1 1000 metros no Mundial de 2013 e foi recusado e posteriormente suspenso de participar no Mundial. Em 2014 não conseguiu o apuramento para a final no K1 1000 metros. Em 2015 conquistou o bronze mas as condições completamente atípicas da final do Rio em 2016, com a influência das algas atiraram-no para fora do pódio juntamente com os outros favoritos René Poulsen e Max Hoff.

         Viveu tempos difíceis após esse 5º lugar. Choveram críticas infundadas, segundo o próprio, alguns até achavam que não era digno de representar Portugal.

     Fernando Pimenta respondeu sagrando-se o primeiro bicampeão mundial e tricampeão europeu (2ª melhor sequência da história) de K1 1000 metros desde 2010. No actual momento leva 5 medalhas consecutivas em K1 1000 metros em mundiais melhor só Helm com 7 em 1983 e Holmant em 1999.

Oposição Nacional

         Carlos Lopes perdeu várias vezes para o seu colega do Sporting Fernando Mamede ao longo da carreira. António Leitão, bronze nos 5000 nos JO1984 fez também parte da seleção nacional ao longo do percurso de Carlos Lopes. Entre muitos outros o corredor nacional teve colegas que o ajudaram na preparação.

Em 1984 na épica disputa pelo recorde mundial nos 10000 metros com Fernando Mamede foi peça fundamental pelo apoio psicológico e táctico ao alentejano. Em 1985 por exemplo perdeu o título nacional de corta-mato para Fernando Mamede. Não era possível vencer sempre. Apesar da rivalidade desportiva, Carlos Lopes sempre foi exemplar com os colegas, recebendo e retribuindo o respeito e apoio. E todo esse clima positivo foi fundamental para as suas conquistas.

         Fernando Pimenta este ano ficou em 2º lugar no K1 500 metros no campeonato nacional, perdendo para o seu colega do Benfica João Ribeiro, actual vice-campeão mundial na distância. No início da carreira a maior experiência de Emanuel Silva foi importante no crescimento de Fernando Pimenta. Hoje, frequentemente João Ribeiro e Fernando Pimenta apoiam-se com elogios públicos mútuos. O espírito de camaradagem dos vice-campeões mundiais de K2 500 metros têm sido um pêndulo importante na evolução da carreira de ambos.

Regularidade apesar de começo tardio

Contabilizando 10000 metros, maratona e corta-mato Carlos Lopes conseguiu estar durante 6 anos pelo menos numa destas vertentes no top4 Mundial. Ninguém conseguiu mais até 1999. Na contagem do melhor resultado em cada época na pista e na maratona em campeonatos mundiais/jogos olímpicos, circuito mundial (anos sem mundiais e Jogos Olímpicos), listas mundiais do ano (anos sem mundiais e Jogos Olímpicos), mundiais de corta-mato; Carlos Lopes totalizou 5 vitórias e 4 segundos lugares. O mesmo que Paul Tergat. É sempre discutível decidir quem é o melhor, ainda para mais em épocas distintas, mas é indubitável que o melhor fundista do século XX a partir de 1960 (em que começam a existir dados oficias de listas anuais) juntando todas as vertentes só poderá estar entre Carlos Lopes, Paul Tergat e Haile Gebresselaisse.

Carlos Lopes conseguiu chegar a este estatuto apesar dos seus primeiros grandes resultados no corta-mato, 10000 metros e maratona terem aparecido numa idade avançada sem precedentes na história do atletismo no século XX. Alcançou 5 medalhas nos Mundiais de Corta-Mato depois dos 29 anos, Mariano Haro e Paul Tergat os únicos por três vezes em toda a história e Mohammed Mourhit o único por duas. Conseguiu por sete vezes estar no top8 nas listas mundiais do ano de 5000,1000 e Maratona no século XX desde os 33 anos. Por mais que uma vez apenas apenas Yifter o fez por 4 vezes e Hammou Boutayeb por duas. Se falarmos no top3 conseguiu 6 vezes e Yifter o único por 2 vezes.

Apesar de na Canoagem ser mais normal que os resultados apareçam numa idade mais avançada porque mover-se em meio fluido necessita de muita sensibilidade, e tempo para a ganhar, como já descrito anteriormente Fernando Pimenta comparativamente com os seus rivais históricos apresentou resultados de relevo numa idade mais avançada.

Isso não o impediu de alcançar todos os registos de completude como frisamos anteriormente. Se mantiver os resultados deste ciclo olímpico após Paris 2024 será o terceiro canoísta com melhor palmarés em K1 1000 metros em Mundiais e Jogos Olímpicos desde 1960.

Actualmente é o segundo melhor de sempre em Europeus e mantendo os resultados em 2024 alcançará o primeiro lugar.


(Parte IV em breve)

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Futsal: A evolução lusitana nos últimos 20 anos que permitiu alcançar o céu (2ª Parte)


  Futsal português entre 2013 e 2016

 

Durante este período, tanto em clubes como em seleções, o futsal português teve dificuldade para apresentar a mesma qualidade de jogo. Muitos dos principais jogadores da melhor geração de ouro estavam a terminar a carreira internacional como Pedro Costa, Arnaldo e Joel Queirós. Por outro lado Pany Varela, Fábio Cecílio, Tiago Brito estavam a dar os primeiros passos na senda internacional.

Nenhum clube português consegue chegar a nenhuma final da UEFA Futsal Cup e a seleção alcança o 4º lugar do Euro 2014 e Mundial 2016

 

Desde 2017- Os efeitos práticos da ascensão do futsal nacional

 

Desde 2017 que o fustal português se assumiu como a maior potência mundial.

O Sporting começou a investir em estrangeiros de enorme qualidade para tentar sagrar-se campeão europeu.

Em 2016/2017 perde 7-0 na final com o Intervíu. Alex Merlim, Dieguinho e Cavinato nunca tinham jogado a UEFA Futsal Cup com a camisola dos leões.

O conjunto de Nuno Dias foi consolidando a sua ideia de jogo. Em 2017/2018 volta a perder mas por 5-2 mas em 2018/2019 sagra-se pela primeira vez na história campeão europeu.

A seleção nacional pode beneficiar da maior maturação dos seus jovens e da explosão internacional de André Coelho e Bruno Coelho para vencer a Espanha por 3-2 após prolongamento numa demonstração inequívoca da equipa mais organizada da Europa.

 

 A evolução fora da quadra

 

                A criação da Cidade do futebol por parte da FPF proporcionou à seleção de futsal condições de profissionalismo ímpares a nível internacional.

         Um dos grandes segredos foi que o futsal nacional bebeu da experiência organizacional da FPF ao mesmo tempo que fez aumentar a sua influência directiva.

         Integrando-se cada vez mais na estrutura da FPF ao mesmo tempo que pela primeira vez na história tinha um director específico para o fustal.

         Os atletas, treinadores, dirigentes e todos os demais profissionais cada vez mais estavam integrados com o futebol ao mesmo tempo que o futsal desenvolvia um plano estrutural com autonomia.

         A Liga Nacional foi crescendo de importância e aumentando drasticamente o seu valor de marca e condições de profissionalização.

         Um plano estratégico para a formação que permitiu aumentar o número de praticantes, maior diálogo entre treinadores, sentimento comum de que todos são importante para a mudança, de que ninguém é deixado para trás e quando se ganha os primeiros nomes que se frisam são os que não estão cá e contribuíram antes para que o hoje fosse possível.

         O futsal português a todos os níveis começou a criar uma união ímpar a nível internacional.

         As condições de estágio e de estada em fases finais foram as melhores possíveis, as residenciais do início do milénio substituídos por hotéis de 4 e 5 estrelas.

         A Federação fez de tudo para que famílias e adeptos pudessem nas fases finais dar um apoio aos jogadores que mais nenhuma seleção teve, à excepção da anfitriã.

         O foco e a disciplina de regras das concentrações intersectavam-se com um elevado grau de autonomia e responsabilização de todos os intervenientes.

         A tudo isto junta-se a crença lúcida de que SOMOS EFECTIVAMENTE OS MELHORES, acreditando que cumprindo o nosso processo dependemos só de nós mesmos e de que os outros têm de ficar à espera de um nosso dia menos bom para nos ganhar e não o contrário.

4-    

A evolução dentro da quadra

 

O futsal em 2021 é bem diferente de 2004. O ritmo de jogo e a mobilidade dos jogadores aumentou drasticamente. A tecnologia proporcionou que cada vez mais fosse possível estudar pormenorizadamente todos os adversários. O 5x4 modernizou-se, os guarda-redes começaram a jogar mais com os pés, as progressões individuais com a bola foram diminuindo porque cada vez havia menos espaço.

As situações de bola parada foram ganhando cada vez maior importância.

Face a toda esta crescente intensidade tornou-se primordial ter 10/12 jogadores de campo aptos para jogar os principais jogos e tornou-se impossível que um jogador jogasse a maior parte do tempo como por exemplo Iván em 2004.

Tendo no momento presente a melhor escola de treinadores do mundo é fácil perceber como estas premissas encaixaram na evolução nacional.

A intensidade e panóplia de variação de ações colectivas fizeram do Sporting (2017-2021) a equipa com mais sucesso na história da modalidade num período de 5 anos.

O facto de todos os novos jogadores da seleção terem começado no futsal e não no futebol como antes acontecia, fez com que as promessas nacionais adquirissem esses princípios técnicos e tácticos em tenra idade. Se juntarmos o nível da exigência lançado às seleções jovens (que dantes nem existiam) entendemos que Erick Mendonça, Tomás Paço, Zicky Té e Afonso Jesus chegaram à seleção nacional como uma ampla maturidade que antes era impensável em qualquer estreante.

Portanto, sendo Portugal o país que melhor se prepara no mundo dentro e fora da quadra é fácil entender como num contexto de maior intensidade, exigência e profissionalismo temos melhores condições para vencer.

Brasil e Rússia, por exemplo, ainda estão a viver da progressão individual exaustiva dos seus jogadores, do arrefecimento do ritmo de jogo para uma súbita mudança de velocidade, pararam no tempo, porque este já não é o modo para vencer no futsal actual.

Futsal uma modalidade com 30 milhões de praticantes, jogada de forma regular em 150 países, com staffs de mais de 20 elementos, intensidade e tomada de decisão rápida ímpar em comparação com qualquer desporto de pavilhão.

Já não basta ter talento individual e arrefecer e controlar o jogo para se ganhar.

Ganhará quem mais se adapta. E é por isso também que Ricardinho é o melhor jogador da história. Porque quando a táctica actual e as lesões (jogou o Mundial com menos um tendão) atiraram as suas fintas,cabritos e golos em fases decisivas para as recordações históricas ele apareceu com 7 assistências fabulosas (melhor do mundial neste capítulo) alicerçadas numa visão de jogo ímpar na história da modalidade.

Ricardinho a personificação do futsal da actualidade. O talento individual sempre, mas mesmo sempre ao serviço do colectivo dentro e fora da quadra.

Não ganharemos sempre, às vezes a bola irá ao poste e a do adversário para dentro, mas a longo prazo ganha quem é mais competente no processo.

Por isso, acredito que em 2041, poderemos recordar as palavras de Jorge Braz e efectivamente em títulos “sermos melhor que eles”.

 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Futsal: A evolução lusitana nos últimos 20 anos que permitiu alcançar o céu (1ª Parte)






“Ando a dizer há 20 anos que somos melhor que eles”

         Foi com estas palavras que Jorge Braz espicaçou os seus jogadores frente à Espanha, o início da reviravolta que permitiu Portugal chegar ao olimpo do futsal mundial.

         Neste artigo o Desporto Total explica o contexto da afirmação do treinador nacional e as razões para só agora termos atingindo a glória eterna mundial.


        1- Futsal Português de 2000 a 2007

Sendo rigoroso evidentemente que Portugal em nenhum parâmetro é melhor que a Espanha há 20 anos.

No Mundial da Guatemala em 2000 o conjunto português ficou em 3º lugar no Mundial, mas perdeu com o Brasil por 4-0 e 8-0 (na Meia-Final) e 3-1 frente à Espanha.

Em 2002 o Sporting foi goleado por 4-0 frente ao Playas Castellón nas meias-finais da 1ª competição oficial de clubes de futsal.

A partir de 2003 a história muda.

Portugal empata 3-3 com a Espanha no europeu, num jogo em que a falta de experiência lusitana foi preponderante para não alcançar a vitória que permitiria chegar às meias-finais.

Em 2004 na final da UEFA Futsal Cup o Benfica perdeu por 4-1 na 1ª mão frente ao Intervíu. Aos 4 minutos já estava a perder por 3-0. As águias entraram completamente atormentadas em campo, com medo de errar e com um nervosismo gritante que a experiência e frieza espanhola aproveitou para cavar um fosso irrecuperável na eliminatória.

Na 2ª mão os 2 golos de André Lima num minuto fizeram levantar o pavilhão quando o Benfica ganhava por 4-2, mas o pragmatismo madrileno fechou a porta a novas surpresas, marcaram um golo estabelecendo o 4-3 final.

O futsal em 2004 era muito diferente do actual. Era normal existir um fixo que jogasse mais de 30 minutos do jogo, as combinações atacantes eram mais lentas, a pressão sobre o portador da bola era menor, existia mais espaço para a qualidade individual fazer a diferença, um menor aproveitamento das bolas paradas, do 5x4 ofensivo, de guarda-redes a jogar com os pés.

No fundo um jogo mais lento e menos colectivo ofensivamente que o actual permitia que os espanhóis tanto em clubes como em seleções, soubessem melhor pautar os ritmos de jogo, gerir a transição defensiva e ter a frieza necessária para vencer.

Em 2007 Portugal está a vencer por 2-0 a Espanha nas meias-finais do europeu mas não teve o discernimento necessário para saber defender o 5x4, dando muito espaço no 2º poste aproveitado para que eles levassem o jogo para os penaltys e nos impedissem de jogar a final do europeu na nossa própria casa.

Do ponto de vista técnico a seleção lusitana em nada ficava a dever à Espanha. Pedro Costa, Arnaldo, Gonçalo Alves, Ricardinho, Joel Queirós, Israel, Ivan entre outros, eram craques que encantava ver jogar.


2- Futsal Português entre 2010 e 2012


Em 2010 Portugal perde a final do europeu contra a Espanha, num jogo em que mais uma vez os espanhóis não tiveram mais volume, intensidade ou criatividade de jogadas. O pragmatismo foi a característica essencial para o sucesso.

Com o pavilhão atlântico com 9400 adeptos o Benfica venceu o Intervíu na final da UEFA Futsal Cup por 3-2 após prolongamento.

O fogo lusitano poderia pela primeira vez vencer o gelo espanhol.

No final André Lima, treinador das águias, disse “ Mais do que vencer para mim o mais importante é ver pela primeira vez o Intervíu lá em baixo”

Por estas palavras assume-se que na época os adversários espanhóis eram um tremendo estigma nos portugueses.

Em 2011 o Sporting vai à final da UEFA Futsal Cup e apresentou o melhor colectivo da prova. Depois de ter eliminado o El Pozo Múrcia na ronda de elite numa demonstração colectiva fantástica eliminou o Kairat Almaty na sua própria casa.

Na final o Montesilvano, tal como na meia-final com o Benfica montou a maior teia defensiva da história do futsal de clubes, liderados por um fantástico Mammarella na baliza venceram por 5-2 mas ficou a ideia de que o Sporting tinha todas as condições para vencer a prova.

No Mundial de 2012, qual fotocópia, Mammarella numa exibição épica é peça preponderante para a reviravolta da Itália perante Portugal. O hat-trick de Ricardinho permitiu a Portugal estar a vencer por 3-0 mas no final do prolongamento o conjunto transalpino sorriu com os 4-3 finais. 


(Parte II em breve)



 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte II)

 

Qualidade dos adversários e respectivas condições

         Carlos Lopes teve como principais adversários ao longo da carreira: Lass Víren (Finlândia), Tony Simmons e Stephen Jones (Grã-Bretanha), Alberto Salazar (EUA) e Bekele Debele (Etiópia).

         Até 1972 a Finlândia foi o país com mais medalhas nos 10000 metros com 11. A Grã-Bretanha até 1985 foi o país com melhores resultados colectivos nos mundiais de Corta-Mato. A Etiópia venceu colectivamente de 1981 a 1985. De 1970 até 1985 apenas 2 Maratonistas por 4 vezes fizeram top4 no final do ano (anos sem JO) e/ou medalhas nos Jogos Olímpicos, ambos eram americanos.

         Carlos Lopes lutou contra adversários que tinham superestruturas de apoio aos atletas na época.

         O finlandês Lass Víren bicampeão olímpico nos 5000 e 10000 em 1972 e 1976 ganhou uma bolsa de estudos na Brigham Young Universidade dos EUA. Em 1972 e 1976 fez estágio e altitude no Quénia e em 1976 também na Colômbia.

         Carlos Lopes focou o seu trabalho para os Jogos Olímpicos em 1984 sobretudo no Monsanto. Estava convencido de que era possível ser campeão olímpico treinando sobretudo em Portugal. Os treinos no cross deram-lhe o título mundial. E foi essa preparação fundamental para o título olímpico em Los Angeles.

         Os principais adversários de Fernando Pimenta ao longo da carreira têm sido atletas alemães, o húngaro Balint Kopasz e o checo Josef Dostal.

         Hungria e Alemanha são os países com mais medalhas olímpicas na Canoagem de velocidade.

         A Alemanha nas últimas 6 grandes competições apresentou 5 canoístas diferentes. E 4 deles fizeram top4 em Mundiais/JO ao longo da carreira. Com um elevado número de praticantes e com uma das melhores escolas de canoagem do mundo a Alemanha cria condições de competitividade absolutamente ímpares a nível mundial.

         A Canoagem é um dos principais desportos na Hungria. O actual grande rival de Fernando Pimenta, Balint Kopasz é um autêntico rei no país pelo protagonismo que têm no espaço mediático.

         Josef Dostal desde 2016 ainda só participou num europeu. Na República Checa quase todos os canoístas quando finalizam a sua carreira integram as forças policiais do país. Existe um claro planeamento estratégico do treino e da carreira dos atletas. Fernando Pimenta após os Mundiais pediu as mesmas condições que os adversários.

        Todos os seus principais adversários têm mais disponibilidade de recorrer a serviços de recuperação de massagens e fisioterapia porque as federações têm mais profissionais direcionados mais especificamente para os atletas de elite, algo que em Portugal, sem um maior apoio estatal não é possível. O canoísta limiano não têm em quantidade a qualidade de competitividade interna dos seus adversários.

       Ambos nunca viraram a cara à luta e apesar de condições desfavoráveis conseguiram atingir o topo da glória mundial.

         Ambos mereceram o respeito eterno dos adversários. Lass Víren diz que Carlos Lopes foi o melhor adversário que defrontou e Balint Kopasz diz que Fernando Pimenta é o melhor competidor que poderia ter.

Características

         Carlos Lopes gostava sempre que possível de assumir a frente da corrida impondo um ritmo fortíssimo. No recorde do mundo de Fernando Mamede a 2 de Julho de 1984 foi o viseense a impor o ritmo.

         O principal exemplo ilustrativo foi a forma como venceu a Maratona nos Jogos Olímpicos em 1984, conseguindo a 4ª maior vantagem perante o 2º classificado de 1976 até hoje e obtendo o recorde olímpico que só foi quebrado em 2008.

         Nos Mundiais de Corta-Mato apenas 3 atletas (Ngugi,Tadesse, Bekele), todos africanos, conseguiram vencer por maior margem o 2º classificado.

         Fernando Pimenta impõe um ritmo na frente na regata quase ímpar na Canoagem Masculina. No século XXI só pode mesmo ser comparando ao canadiano Adam van Koeverden pela forma destemida como assume a frente da competição independente da resposta dos adversários. Esta forma de pagaiar faz dele o campeão europeu com maior vantagem para o adversário desde 1959 e o 4º de sempre. Esta estratégia de esticar o ritmo permitiu-lhe derrotar o campeão olímpico Balint Kopasz, uma das maiores promessas de sempre da canoagem mundial, ambos os pais foram canoístas e venceu os Jogos Olímpicos com a maior margem desde 1956.

(Parte III em breve)



terça-feira, 28 de setembro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte I)

 





        Fernando Pimenta ao sagrar-se campeão mundial de K1 1000 metros somou a 5ª medalha individual consecutiva em Mundiais num evento olímpico, criando um novo recorde no desporto olímpico português.

        Neste contexto o Desporto Total apresenta um trabalho inédito de comparação entre Fernando Pimenta e Carlos Lopes que nos dá a conhecer os principais segredos destes campeões.

Primeiras Provas e Visão Treinador

         A primeira vez que Mário Moniz Pereira viu Carlos Lopes correr o atleta viseense não venceu a prova. Fascinado pela sua postura de correr e maneira de estar o treinador preferiu falar com Carlos Lopes do que com o vencedor da prova.

         Fernando Pimenta iniciou a prática de Canoagem numas férias de Verão em Ponte de Lima. As primeiras pagaiadas do limiano estavam longe de ser animadoras, virando demasiadas vezes o kayak. No final das férias o treinador Hélio Lucas que viu nele energia e força de vontade convidou-o a integrar o clube. Fernando Pimenta pensava que era uma brincadeira mas não recusou o desafio.

         Mário Moniz Pereira e Hélio Lucas tiveram algo em comum, absolutamente raro no desporto português. Tiveram a capacidade de olhar a longo prazo, de entender a mentalidade ímpar que esteves jovens tinham relativamente a todos os outros. Entenderam que estes diamantes em bruto tinham muita margem de lapidação. Preferiram esperar, escolheram o processo em vez do curto prazo e os resultados falam por si.

Primeiros Resultados Tardios

         Em 1971 no Campeonato da Europa, Carlos Lopes participou na sua primeira grande competição. Terminou em 30º nos 3000 metros obstáculos e 33º (último, sem contar com 2 desistências) nos 10000 metros.

         Em 2009 na sua primeira grande competição a nível sénior Fernando Pimenta foi 8º classificado em K1 1000 metros no Campeonato da Europa.

     Carlos Lopes apenas aos 29 anos conseguiu o seu primeiro grande resultado, sagrando-se campeão do mundo de Corta-Mato. O atleta lusitano foi o campeão mundial mais velho do século XX nesta vertente. O corredor nacional ganhou a Maratona nos JO de 1984 aos 37 anos. Até hoje nenhum atleta venceu pela 1ª vez uma Maratona nos JO ou Mundial com essa idade.

         Fernando Pimenta também aos 29 anos sagrou-se pela primeira vez campeão mundial de K1 1000 metros. Aos 26 anos ganhou o bronze em K1 1000 metros, 1ª medalha mundial num evento olímpico individual. Em toda a história da canoagem apenas Lutz Liwowski ganhou a primeira medalha depois dos 26 anos e também foi campeão em K1 1000 metros depois dos 29 anos.

Pioneiros

         Antes de Carlos Lopes, Portugal tinha apenas o 4º lugar de Manuel Oliveira nos 3000 metros obstáculos nos Jogos Olímpicos de 1964 como um top4 nos Jogos Olímpicos (1º Mundial só houve em 1983) no Atletismo.

         Antes de Fernando Pimenta, Portugal tinha apenas o 5º lugar de Rui Fernandes em K1 500 metros em 1994 como único resultado top5 num mundial ou Jogos Olímpicos num evento olímpico individual.

Completude

         Carlos Lopes é até hoje o único fundista da história a fazer pelo menos 3 vezes top3 (fez 4) na lista mundial do ano nos 10000 metros, a conquistar 3 medalhas no Mundial de Corta-Mato (conquistou 3 Ouros e 2 Pratas) e a estar 3 vezes no top3 na lista mundial do ano na Maratona.

         Durante 2 anos foi campeão do mundo de corta-Mato e campão olímpico na maratona ou líder mundial do ano. Até hoje nunca nenhum atleta foi campeão do mundo de Corta-Mato e na mesma época campeão mundial ou olímpico ou líder mundial do ano na Maratona.

         Durante 3 épocas simultaneamente foi campeão do mundo de corta-mato e ganhou medalhas olímpicas ou foi líder mundial do ano na Maratona. Até 1992 nenhum atleta conseguiu durante 3 anos estar simultaneamente no topo no corta-mato e provas olímpicas. Lismont conseguiu-o por 2 vezes, todos os outros apenas 1. Mesmo hoje apenas Paul Tergat e Kenenisa Bekele com muito melhores condições de recuperação conseguiram superar esta estatística.

       Fernando Pimenta é o único canoísta na história a ganhar medalhas simultaneamente em K1 1000 e K1 5000 (nos mundiais desde 2010) ou K1 10000 (saiu dos Mundiais em 1993) 4 vezes. Apenas Perri o fez por 3 vezes.

    O canoísta luso fez ainda em 3 Mundiais top2 nas duas distâncias e desde 1952 ninguém o consegue fazer por duas vezes! Está a duas medalhas de ser o mais galardoado de sempre nestes eventos.


(Parte II em breve)