quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte III)



Críticas internas

         Após ganhar a medalha de prata em Montreal em 1976 e de ser vice-campeão mundial de corta-mato em 1977 Carlos Lopes viveu um período de quebra.

         As sucessivas lesões fizeram com que desde 1978 a 1981 não tenha conseguido nunca figurar no top10 das listas anuais, participar nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 ou sequer fazer um top10 nos Mundiais de Corta-mato. Várias foram as vozes internas que sentenciaram a sua carreira.

         Imune às opiniões dos outros o fundista nacional foi campeão olímpico na Maratona em 1984, bateu o recorde do mundo e foi líder anual em 1985, fez a terceira melhor marca do ano em 1983. Nos 10000 metros fez a 2ª melhor marca do ano em 1982, a melhor em 1983 e a 2ª em 1984. Foi ainda a tempo de ser campeão do mundo de corta-mato por duas vezes e de conquistar mais uma medalha de prata.

         Após ganhar a medalha de prata em Londres2012 no K2 1000 metros em conjunto com Emanuel Silva, Fernando Pimenta viveu um período de problemas internos com a federação portuguesa de canoagem. Queria participar no K1 1000 metros no Mundial de 2013 e foi recusado e posteriormente suspenso de participar no Mundial. Em 2014 não conseguiu o apuramento para a final no K1 1000 metros. Em 2015 conquistou o bronze mas as condições completamente atípicas da final do Rio em 2016, com a influência das algas atiraram-no para fora do pódio juntamente com os outros favoritos René Poulsen e Max Hoff.

         Viveu tempos difíceis após esse 5º lugar. Choveram críticas infundadas, segundo o próprio, alguns até achavam que não era digno de representar Portugal.

     Fernando Pimenta respondeu sagrando-se o primeiro bicampeão mundial e tricampeão europeu (2ª melhor sequência da história) de K1 1000 metros desde 2010. No actual momento leva 5 medalhas consecutivas em K1 1000 metros em mundiais melhor só Helm com 7 em 1983 e Holmant em 1999.

Oposição Nacional

         Carlos Lopes perdeu várias vezes para o seu colega do Sporting Fernando Mamede ao longo da carreira. António Leitão, bronze nos 5000 nos JO1984 fez também parte da seleção nacional ao longo do percurso de Carlos Lopes. Entre muitos outros o corredor nacional teve colegas que o ajudaram na preparação.

Em 1984 na épica disputa pelo recorde mundial nos 10000 metros com Fernando Mamede foi peça fundamental pelo apoio psicológico e táctico ao alentejano. Em 1985 por exemplo perdeu o título nacional de corta-mato para Fernando Mamede. Não era possível vencer sempre. Apesar da rivalidade desportiva, Carlos Lopes sempre foi exemplar com os colegas, recebendo e retribuindo o respeito e apoio. E todo esse clima positivo foi fundamental para as suas conquistas.

         Fernando Pimenta este ano ficou em 2º lugar no K1 500 metros no campeonato nacional, perdendo para o seu colega do Benfica João Ribeiro, actual vice-campeão mundial na distância. No início da carreira a maior experiência de Emanuel Silva foi importante no crescimento de Fernando Pimenta. Hoje, frequentemente João Ribeiro e Fernando Pimenta apoiam-se com elogios públicos mútuos. O espírito de camaradagem dos vice-campeões mundiais de K2 500 metros têm sido um pêndulo importante na evolução da carreira de ambos.

Regularidade apesar de começo tardio

Contabilizando 10000 metros, maratona e corta-mato Carlos Lopes conseguiu estar durante 6 anos pelo menos numa destas vertentes no top4 Mundial. Ninguém conseguiu mais até 1999. Na contagem do melhor resultado em cada época na pista e na maratona em campeonatos mundiais/jogos olímpicos, circuito mundial (anos sem mundiais e Jogos Olímpicos), listas mundiais do ano (anos sem mundiais e Jogos Olímpicos), mundiais de corta-mato; Carlos Lopes totalizou 5 vitórias e 4 segundos lugares. O mesmo que Paul Tergat. É sempre discutível decidir quem é o melhor, ainda para mais em épocas distintas, mas é indubitável que o melhor fundista do século XX a partir de 1960 (em que começam a existir dados oficias de listas anuais) juntando todas as vertentes só poderá estar entre Carlos Lopes, Paul Tergat e Haile Gebresselaisse.

Carlos Lopes conseguiu chegar a este estatuto apesar dos seus primeiros grandes resultados no corta-mato, 10000 metros e maratona terem aparecido numa idade avançada sem precedentes na história do atletismo no século XX. Alcançou 5 medalhas nos Mundiais de Corta-Mato depois dos 29 anos, Mariano Haro e Paul Tergat os únicos por três vezes em toda a história e Mohammed Mourhit o único por duas. Conseguiu por sete vezes estar no top8 nas listas mundiais do ano de 5000,1000 e Maratona no século XX desde os 33 anos. Por mais que uma vez apenas apenas Yifter o fez por 4 vezes e Hammou Boutayeb por duas. Se falarmos no top3 conseguiu 6 vezes e Yifter o único por 2 vezes.

Apesar de na Canoagem ser mais normal que os resultados apareçam numa idade mais avançada porque mover-se em meio fluido necessita de muita sensibilidade, e tempo para a ganhar, como já descrito anteriormente Fernando Pimenta comparativamente com os seus rivais históricos apresentou resultados de relevo numa idade mais avançada.

Isso não o impediu de alcançar todos os registos de completude como frisamos anteriormente. Se mantiver os resultados deste ciclo olímpico após Paris 2024 será o terceiro canoísta com melhor palmarés em K1 1000 metros em Mundiais e Jogos Olímpicos desde 1960.

Actualmente é o segundo melhor de sempre em Europeus e mantendo os resultados em 2024 alcançará o primeiro lugar.


(Parte IV em breve)

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