terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Cristiano Ronaldo: A superação máxima no contexto errado

       1ª Parte- Os números

 

        

        Com a finalização do último campeonato do Mundo vários comentadores e figuras históricas do futebol Mundial afirmaram perentoriamente que Lionel Messi com o título mundial obtido pela Argentina torna-se o melhor jogador da história do futebol.

         Esta conclusão perfeitamente descontextualizada e desprovida de qualquer razão é apenas mais um momento na história do futebol que demonstra efectivamente que neste desporto não existem critérios racionais para fazer comparações.

         A aferição do rendimento dos futebolistas ao longo da história é pessimamente medida pelos seus protagonistas.

         No Basquetebol por exemplo, existem estatísticas detalhadas sobre o rendimento dos jogadores em cada fase da NBA que estão à distância de um clique no Google. Fala-se na quantidade de vezes que um jogador foi eleito MVP do campeonato e da Final em específico.

         No Andebol é normal um jogador ser o melhor do mundo num ano sem vencer qualquer título se o seu rendimento o justificar, tem-se em conta o rendimento nas fases adiantadas das provas de clubes e seleções e não apenas o cômputo geral da prova. O que faz por exemplo que o melhor marcador da história da Liga dos Campeões Kiril Lazarov não seja sequer equacionado como um dos 10 melhores jogadores de sempre.

         Cristiano Ronaldo cresceu para o futebol a admirar Fábio Paim. Começou a sua carreira sénior por ser um extremo habilidoso, demasiado colado à linha, sempre à procura de fintas e dribles estonteantes e a tentar resolver os jogos individualmente. Hoje é o melhor marcador e rei das assistências da história da Liga dos Campeões, inventou uma nova posição no futebol, não sendo nem um extremo nem um avançado puro. Para isso contribuiu naturalmente a extraordinária melhoria do seu jogo aéreo ao longo dos anos, de remates de pé esquerdo e pé direito e naturalmente a melhoria significativa do seu posicionamento em todas as zonas dos últimos 25 metros.

         Cristiano Ronaldo assumiu que percebeu que tinha de deixar de ser um jogador obcecado por fintas e dribles para se tornar mais completo e por isso estabelecer números que se julgavam impossíveis de alcançar por qualquer jogador.

         A diferença de rendimento de Cristiano Ronaldo perante qualquer outro jogador desde 2007 é absolutamente gritante e sem alvo de quaisquer comparações.

         A Liga dos Campeões desde 2003/2004 têm um sorteio puro nos quartos-de-final. Por isso a dificuldade de jogar um jogo nos quartos-de-final pode ser mais do que a própria final, porque estará dependente do sorteio e não do rendimento das equipas nas fases antecessoras. Neste contexto, de analisar os melhores jogadores do mundo, importa fundamentalmente analisar o rendimento destes a partir desta fase da prova. Os elevados salários que auferem acontecem em larga medida devido à capacidade que têm para contribuir para a sua equipa obter um grande rendimento nesta fase.

         Cristiano Ronaldo ao longo da história têm 49 jogos a titular e 42 golos nesta fase. Lionel Messi têm 40 jogos a titular e 20 golos. Portanto o português têm o dobro dos golos e uma média de 0,85 contra 0,5 do jogador argentino. Na mesma fase da prova têm 6 assistências apenas menos uma que Lionel Messi.




            Ao longo da história Cristiano Ronaldo teve 12! épocas em que marcou mais do que um golo nesta fase da prova. E por 8! vezes marcou mais que 2 golos. Lionel Messi teve 6 épocas (metade) que marcou mais que um golo e apenas 4! com mais do que dois golos.

         Desde que Pep Guardiola abandonou o Barcelona Messi marcou 7 golos a partir desta fase da prova. Cristiano Ronaldo MARCOU O QUADRÚPLO 28. O plantel do Real Madrid entre 2013-2018 sem Cristiano Ronaldo foi avaliado pelo site transferencemarket em 3883 milhões de euros, enquanto o do Barcelona sem Messi foi avaliado em 3627,85. Uma diferença bastante ligeira que evidentemente não explica este diferencial de números.

         Desde 2007 os clubes que Cristiano Ronaldo jogou pelo mesmo portal sem ele foram avaliados em 8706,7 milhões de euros enquanto os clubes que Messi jogou sem ele foram avaliados em 9499 milhões de euros.

         Xavi e Iniesta juntos obtiveram 13 presenças entre os 10 melhores jogadores do mundo nos prémios FIFA enquanto Modric e Kroos obtiveram apenas 5!

      Um argumento que tem muita importância neste tipo de comparações é o rendimento dos jogadores em Campeonatos do Mundo.

         Desde 2007 Portugal teve 0 jogadores retirando Cristiano Ronaldo nomeados para a lista final do prémio da FIFA.

Se olharmos para a história nenhuma equipa foi campeã do Mundo com apenas um jogador num espaço de 15 anos nomeado para ser o melhor do mundo. O Prémio FIFA não existia antes de 1991. Desde 1958 apenas a Argentina em 1978 teve menos de 2 jogadores nomeados para o melhor onze de sempre da France Football, mas Mário Kempes nessa época era indubitavelmente um dos melhores jogadores do mundo.


 

Total

Jogador + nomeado

Retirando jogador mais nomeado

Espanha

33

9

24

Alemanha

23

5

18

França

15

4

11

Inglaterra

13

4

9

Holanda

11

3

8

Itália

10

5

5

Brasil

13

8

5

Argentina

20

15

5

Costa do Marfim

8

5

3

Bélgica

6

3

3

Uruguai

6

4

2

Colômbia

3

2

1

Portugal

15

15

0


        Podemos alargar a lista e ver as nomeações por país desde 2007 para os melhores jogadores a actuar em clubes europeus para a votação do onze do ano da UEFA (dados até 2020). Foram nomeados em cada ano entre 40 e 60 jogadores.

 

Total

Jogador + nomeado

Sem jogador + nomeado

Espanha

100

12

88

Alemanha

63

8

55

França

51

6

45

Inglaterra

42

4

38

Holanda

39

5

34

Itália

36

6

30

Brasil

51

6

45

Argentina

48

14

34

Costa do Marfim

10

5

5

Bélgica

26

6

20

Uruguai

22

5

17

Colômbia

8

4

4

Portugal

36

14

22

Croácia

12

6

6


            Podemos analisar a qualidade dos companheiros de ataque, podemos analisar os médios e avançados de cada país retirando o avançado mais nomeado (dados até 2020)

 

Médios

Sem Avançado + nomeado

Total

Espanha

29

14

43

Alemanha

17

8

25

França

12

17

29

Inglaterra

10

6

16

Holanda

6

10

16

Itália

8

6

14

Brasil

8

6

14

Argentina

5

21

26

Costa do Marfim

5

1

6

Bélgica

6

4

10

Uruguai

0

7

7

Colômbia

0

3

3

Portugal

3

4

7

Croácia

9

0

9


Das 22 nomeações de Portugal 15 são de guarda-redes ou defesas. Em 14 anos Portugal teve apenas 7 nomeações de médios e avançados para ser considerados entre os melhores 40-60 jogadores do mundo.

Espanha, Alemanha, França tiveram mais do tripo. Inglaterra, Holanda, Itália e Brasil o dobro ou mais do dobro. A ARGENTINA DE LIONEL MESSI TÊM QUASE 4 VEZES MAIS NOMEAÇÕES! Bélgica e Croácia ainda conseguem ter mais nomeações que Portugal. Uruguai tem a mesmas.   

         Portanto pedir a Cristiano Ronaldo para ganhar um Mundial por Portugal para se poder comparar com os maiores nomes da história do futebol é completamente desproporcional. E por estes números factualmente se prova que a frase proferida antes do Euro2004 “Portugal têm dos melhores jogadores do mundo” é apenas história. Portugal em relação aos outros países candidatos a serem campeões do mundo tem muito menos nomeações nos prémios FIFA e UEFA.




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