terça-feira, 30 de novembro de 2021

Ricardinho- O mágico carregador de pianos em prol do colectivo (Parte II)

 


3- Comparação com Falcão


O Desporto Total não pretende apresentar as virtudes de um e de outro e eleger afinal quem é melhor. Mas sim contextualizar a comparação dos dois maior diamantes lapidados da história da modalidade.


A comparação entre Falcão e Ricardinho deve servir essencialmente para o futsal entender, mais uma vez, o enorme potencial de marca que não aproveitou.


Estes dois ilusionistas em toda a carreira em competições oficiais apenas participaram simultaneamente nos Mundiais de 2004,2008,2012 e 2016.


Portanto apenas de 4 em 4 anos tivemos estes dois jogadores a jogar a mesma competição. Será que se imagina Lionel Messi a jogar a Liga dos Libertadores e termos de esperar 4 anos para num Mundial, disputar a mesma competição que Cristiano Ronaldo.


Neste contexto é muito difícil comparar em anos sem mundial jogadores que jogam competições totalmente diferentes em continentes diferentes perante equipas/países totalmente diferentes e quase toda a totalidade de jogadores colegas e adversários totalmente diferentes.


Se Ricardinho jogasse na Europa de 2010 a 2013 poderia ter 8 Bolas de Ouro e Falcao apenas 2.

Mas os brasileiros podem sempre afirmar que se Falcao jogasse na Europa outro galo cantaria e ele próprio podia ter sido o melhor do mundo em 2005, 2007,2008 e 2009, anos em que venceu a Libertadores.

Portanto seria bom que tal como a generalidade dos desportos olímpicos colectivos, o futsal encontra-se de forma sistemática competições de clubes e seleções onde os melhores jogadores possam estar simultaneamente a competir algo fundamental para o crescimento da modalidade.

 4-Síntese da carreira: virtuosismo, visão de jogo e capacidade defensiva

Quando Ricardinho se estreou na seleção o futsal era jogado de uma forma mais lenta. Vários jogadores faziam 35 minutos de jogo. O menor ritmo de jogo e pressão sobre o portador da bola permitiu com que o seu virtuosismo saltasse mais facilmente à vista.

Com o passar dos anos, aprimorando a técnica fruto de um trabalho individual incansável: os cabritos, golos utópicos e dribles desconcertantes foram cada vez mais fazendo as delícias dos amantes da modalidade.

Em 2007 na Meia-Final do Europeu Ricardinho marca um golo de bicicleta a Luís Amado, considerado por muitos analistas, o melhor guarda-redes de sempre da modalidade.

Desde 2010 o futsal tornou-se cada vez mais um jogo colectivo e dinâmico com maior troca de bola entre jogadores e menor progressão individual com a bola. Mas Ricardinho não piorou o seu nível, bem pelo contrário. Continuou a decidir bem e muito rápido vencendo num contexto que lhe poderia ser menos favorável 5 vezes o título de melhor jogador do mundo.

Em recente conversa no Canal 11, a sua primeira treinadora Carolina Silva, disse que a primeira coisa que lhe saltou à vista foi a sua visão de jogo.

Neste Mundial, Ricardinho foi o jogador com mais assistências, que mais jogadas de perigo criou, mesmo depois do calvário da lesão que o poderia ter hipotecado de participar nesta fase final.

Porque mais importante que fazer bem é sempre decidir bem e Ricardinho sempre teve consciência das suas capacidades utilizando-as em prol do colectivo. Ao longo da sua carreira é muito esporádico vê-lo tentar o drible em situações que colocassem a equipa em perigo ou optar pela jogada individual prejudicando o colectivo.

         A intensificação do 5x4 juntando ao elevado ritmo do jogo fez com que cada vez mais os jogadores mais criativos de futsal tivessem que ser muito criativos. Ricardinho tornou-se uma pedra essencial na manobra defensiva da seleção nacional, nunca sendo retirado de campo em função da equipa passar a defender mais, mas sim pelo desgaste físico ou opção estratégica global.

         Ricardinho soube ao longo da carreira dar às suas equipas aquilo que elas mais necessitavam, adaptando-se às mudanças das tendências do jogo e da sua condição física mas nunca deixando de estar no topo de todas as competições internacionais que disputou.

       Uma regularidade quase ímpar no desporto mundial, só ao alcance de um predestinado incansável pelo trabalho e em aprender com todos os intervenientes directos (colegas e outras pessoas do futsal) e indirectos (vendo outros desportos e aprendendo com jogadores de Freestyle) para que com os pequenos detalhes fazer as grandes diferenças.

         Mais do que a qualidade patenteada em campo fica a atitude de um homem sempre em busca de reinventar soluções engradecendo a sua modalidade.

         Seria portanto justo que o futsal entendesse o legado do seu maior embaixador de sempre e de uma vez por todas fizesse as alterações necessárias para se tornar um desporto mediático universal e uma marca reconhecida nos 4 cantos do mundo. Este seria sem sombra de dúvidas a melhor prenda que Ricardinho poderia ter. 

2-    

sábado, 20 de novembro de 2021

Hóquei em Patins: Um desporto de qualidade de século XXI ainda como marca dos anos 80


       A falta de intensidade e de entrega ao jogo na vitória Espanha por 3-1 frente à França, que apurou as duas seleções para a final do europeu colou a nu todos os problemas actuais do hóquei em patins.

         Os portugueses estão desiludidos pela falta de fair-play de ambos os intervenientes e dizem que isto não contribui para o crescimento do hóquei.

         Mas como sempre, nos últimos tempos, várias são as vozes críticas pela forma como a modalidade é gerida, mas escassas ou quase nulas são as soluções de mudança que façam evoluir a modalidade.

         O primeiro grande erro passa por assumir um modelo competitivo de todos contra todos, com 6 equipas, sem meias-finais e em que as 2 piores seleções do ranking europeu não se defrontem na última jornada. Fazer sorteio puro e não em função dos resultados anteriores é um erro primário que potencializa que a meritocracia desportiva possa não ser efectivada. Um Portugal-Espanha e França-Itália na última jornada diminuiria quase de certeza este tipo de situações insólitas. Mas tudo se resolveria se a mesma competição tivesse meias-finais e tivesse começado um dia antes.

         Neste caso concreto é fácil perceber onde esteve o erro. Na aceitação dum modelo competitivo completamente ultrapassado, inexistente em qualquer desporto colectivo no século XX. Mas o mais grave é que os intervenientes não têm consciência disso.

         Tal como outras mudanças estratégicas ainda não foram efectivadas para catapultar a modalidade para outro nível:

   - Maior autonomia do hóquei em patins dentro das federações nacionais e internacionais de patinagem para se poder potencializar

       - Ausência de protocolos internacionais em que dirigentes e treinadores credenciados possam desenvolver a modalidade em países que não a praticam ou que o fazem de um modo completamente amador

      - Jogos internacionais de topo em que as marcas do campo coincidem com outras modalidades, o que prejudica a transmissão televisiva

      - Manutenção da cor da bola preta que dificulta a visualização

      - Design de publicidade e pavilhões quase iguais aos anos 80

       - Preços muito caros no equipamento

   - Guerras entre clubes e federação europeia que impedem que os melhores clubes participem na Liga dos Campeões

O hóquei em patins é um desporto que envolve muito menos dinheiro que os principais desportos olímpicos colectivos. O Barcelona o ano passado não chegou aos 4 milhões de orçamento na modalidade. Portanto mesmo nestas condições, sem grande valor de prémios monetários foi possível França e Espanha quebrarem a intensidade do jogo para se apurarem as duas para a final.

Quer obrigar os outros a ter ética e respeito é uma realidade dos anos 80 que jamais pode ser válida na terceira década do século XXI.

O desporto mundial cresceu e regulamentou-se, estabeleceu critérios objectivos para impedir que estas situações ocorram.

O hóquei em patins terá de fazer o mesmo caminho. Pois se nem estes princípios básicos conseguir albergar e continuar a pensar apenas na boa vontade continuará estagnado como um valor de marca de anos 80 quando caminhamos para o meio do século XXI.


 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Ricardinho- O mágico carregador de pianos em prol do colectivo (Parte I)

 


        A retirada de Ricardinho da seleção portuguesa deixa o futsal internacional muito mais pobre.

         Mais do que falar que na senda internacional de seleções se acabaram os coelhos da cartola do eterno mágico e que todo o seu perfume exclusivo deixará de ser espalhado pelas quadras mais emblemáticos do mundo, o Desporto Total lança um olhar global à carreira de Ricardinho, explicando o que o futsal pode aprender para finalmente para dar o passo seguinte rumo à afirmação no panorama desportivo internacional.

   1-Carreira internacional de clubes de Ricardinho

 

Até ao momento presente Ricardinho participou em 11 edições da Liga dos Campeões de Futsal. O astro português venceu por três vezes a competição. Por duas vezes foi finalista e por uma semifinalista.

Onze participações e seis semifinais é manifestamente pouco para quem é considerado quase unanimemente o melhor jogador de sempre qua actuou na prova.

Cristiano Ronaldo por exemplo já participou em 18 edições da Liga dos Campeões e por 11 vezes esteve nas meias-finais.

Tendo o futebol um contexto de competitividade superior, como se explicam estas diferenças?

No futsal, só a partir da época 2017/2018 passaram a competir 2 equipas por país, o que impossibilitou Ricardinho de participar em 2005, 2007 e 2014 mesmo estando a actuar na Europa.

Todos os vencedores da Liga dos Campeões de futsal disputaram a competição no máximo em 3 fins-de-semana por cada época.

Mesmo actualmente com 2 equipas dos 4 principais países, não existem mais de 10 equipas em condições de proporcionar excelentes espectáculos desportivos.

Portanto não sendo uma presença assídua no calendário e não tendo muitos jogos de grande qualidade a competição está longe de alcançar um valor de mercado minimamente comparável com o Andebol e Voleibol, por exemplo.

Este facto faz com que a participação na Liga dos Campeões não seja uma prioridade na carreira dos atletas.

Por tudo isto foi possível, um clube japonês em 2010 oferecer a Ricardinho um ordenado que nenhum dos tubarões europeus estava disposto a oferecer e portanto de 2011 a 2013 o melhor jogador do mundo estava fora da competição.

Ricardinho sentia-se muito bem tratado do Japão e só voltou à Europa porque sabia que só assim poderia voltar a ser o melhor jogador do mundo.

Quem perdeu mais com tudo isto foi a própria modalidade. Que perdendo o seu principal intérprete não se potencializou. Em 2018 na altura em que foi eleito o melhor jogador do mundo pela última vez auferia cerca de 300 mil euros anuais. Este valor é quase 10 vezes inferior ao salário de Mikkel Hansen-Andebol (2,5 milhões de euros anuais).

Ricardinho é actualmente o terceiro melhor marcador de sempre da Liga dos Campeões e 95% dos consumidores portugueses da final do Mundial de Futsal não saberão quem são os dois melhores marcadores: André Vanderlei e Lúcio.

 

  2-Carreira internacional de Ricardinho nas seleções

 

Se a Liga dos Campeões nunca conseguiu ter um protagonismo sistemático no futsal internacional as competições de seleções assumiriam um papel preponderante para a divulgação da modalidade.

Contudo, os Mundiais apenas se realizam de 4 em 4 anos e os Europeus de 2 em 2 até 2018 e de 4 em 4 desde então.

Ricardinho marcou 3 golos à Itália nos quartos-de-final do Mundial de 2012, foi o melhor marcador do Mundial de 2016 e o melhor jogador do mundial de 2021. Foi ainda melhor jogador do Europeu de 2007 e 2018. Em 2012,2014 e 2016 realizou excelentes europeus. Em 2014 marcou quando fomos eliminados com a Itália e em 2016 bisou contra a Espanha na mesma circunstância.

Portanto esteve sempre em grande forma nas grandes competições, mas Portugal infelizmente até 2018 nunca conseguiu vencer nenhum troféu. Em 2011 e 2013 Ricardinho não disputou qualquer competição internacional. E neste contexto percebemos que face ao seu valor poderia ter alcançado resultado ainda melhores.