quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte II)

 

Qualidade dos adversários e respectivas condições

         Carlos Lopes teve como principais adversários ao longo da carreira: Lass Víren (Finlândia), Tony Simmons e Stephen Jones (Grã-Bretanha), Alberto Salazar (EUA) e Bekele Debele (Etiópia).

         Até 1972 a Finlândia foi o país com mais medalhas nos 10000 metros com 11. A Grã-Bretanha até 1985 foi o país com melhores resultados colectivos nos mundiais de Corta-Mato. A Etiópia venceu colectivamente de 1981 a 1985. De 1970 até 1985 apenas 2 Maratonistas por 4 vezes fizeram top4 no final do ano (anos sem JO) e/ou medalhas nos Jogos Olímpicos, ambos eram americanos.

         Carlos Lopes lutou contra adversários que tinham superestruturas de apoio aos atletas na época.

         O finlandês Lass Víren bicampeão olímpico nos 5000 e 10000 em 1972 e 1976 ganhou uma bolsa de estudos na Brigham Young Universidade dos EUA. Em 1972 e 1976 fez estágio e altitude no Quénia e em 1976 também na Colômbia.

         Carlos Lopes focou o seu trabalho para os Jogos Olímpicos em 1984 sobretudo no Monsanto. Estava convencido de que era possível ser campeão olímpico treinando sobretudo em Portugal. Os treinos no cross deram-lhe o título mundial. E foi essa preparação fundamental para o título olímpico em Los Angeles.

         Os principais adversários de Fernando Pimenta ao longo da carreira têm sido atletas alemães, o húngaro Balint Kopasz e o checo Josef Dostal.

         Hungria e Alemanha são os países com mais medalhas olímpicas na Canoagem de velocidade.

         A Alemanha nas últimas 6 grandes competições apresentou 5 canoístas diferentes. E 4 deles fizeram top4 em Mundiais/JO ao longo da carreira. Com um elevado número de praticantes e com uma das melhores escolas de canoagem do mundo a Alemanha cria condições de competitividade absolutamente ímpares a nível mundial.

         A Canoagem é um dos principais desportos na Hungria. O actual grande rival de Fernando Pimenta, Balint Kopasz é um autêntico rei no país pelo protagonismo que têm no espaço mediático.

         Josef Dostal desde 2016 ainda só participou num europeu. Na República Checa quase todos os canoístas quando finalizam a sua carreira integram as forças policiais do país. Existe um claro planeamento estratégico do treino e da carreira dos atletas. Fernando Pimenta após os Mundiais pediu as mesmas condições que os adversários.

        Todos os seus principais adversários têm mais disponibilidade de recorrer a serviços de recuperação de massagens e fisioterapia porque as federações têm mais profissionais direcionados mais especificamente para os atletas de elite, algo que em Portugal, sem um maior apoio estatal não é possível. O canoísta limiano não têm em quantidade a qualidade de competitividade interna dos seus adversários.

       Ambos nunca viraram a cara à luta e apesar de condições desfavoráveis conseguiram atingir o topo da glória mundial.

         Ambos mereceram o respeito eterno dos adversários. Lass Víren diz que Carlos Lopes foi o melhor adversário que defrontou e Balint Kopasz diz que Fernando Pimenta é o melhor competidor que poderia ter.

Características

         Carlos Lopes gostava sempre que possível de assumir a frente da corrida impondo um ritmo fortíssimo. No recorde do mundo de Fernando Mamede a 2 de Julho de 1984 foi o viseense a impor o ritmo.

         O principal exemplo ilustrativo foi a forma como venceu a Maratona nos Jogos Olímpicos em 1984, conseguindo a 4ª maior vantagem perante o 2º classificado de 1976 até hoje e obtendo o recorde olímpico que só foi quebrado em 2008.

         Nos Mundiais de Corta-Mato apenas 3 atletas (Ngugi,Tadesse, Bekele), todos africanos, conseguiram vencer por maior margem o 2º classificado.

         Fernando Pimenta impõe um ritmo na frente na regata quase ímpar na Canoagem Masculina. No século XXI só pode mesmo ser comparando ao canadiano Adam van Koeverden pela forma destemida como assume a frente da competição independente da resposta dos adversários. Esta forma de pagaiar faz dele o campeão europeu com maior vantagem para o adversário desde 1959 e o 4º de sempre. Esta estratégia de esticar o ritmo permitiu-lhe derrotar o campeão olímpico Balint Kopasz, uma das maiores promessas de sempre da canoagem mundial, ambos os pais foram canoístas e venceu os Jogos Olímpicos com a maior margem desde 1956.

(Parte III em breve)



terça-feira, 28 de setembro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte I)

 





        Fernando Pimenta ao sagrar-se campeão mundial de K1 1000 metros somou a 5ª medalha individual consecutiva em Mundiais num evento olímpico, criando um novo recorde no desporto olímpico português.

        Neste contexto o Desporto Total apresenta um trabalho inédito de comparação entre Fernando Pimenta e Carlos Lopes que nos dá a conhecer os principais segredos destes campeões.

Primeiras Provas e Visão Treinador

         A primeira vez que Mário Moniz Pereira viu Carlos Lopes correr o atleta viseense não venceu a prova. Fascinado pela sua postura de correr e maneira de estar o treinador preferiu falar com Carlos Lopes do que com o vencedor da prova.

         Fernando Pimenta iniciou a prática de Canoagem numas férias de Verão em Ponte de Lima. As primeiras pagaiadas do limiano estavam longe de ser animadoras, virando demasiadas vezes o kayak. No final das férias o treinador Hélio Lucas que viu nele energia e força de vontade convidou-o a integrar o clube. Fernando Pimenta pensava que era uma brincadeira mas não recusou o desafio.

         Mário Moniz Pereira e Hélio Lucas tiveram algo em comum, absolutamente raro no desporto português. Tiveram a capacidade de olhar a longo prazo, de entender a mentalidade ímpar que esteves jovens tinham relativamente a todos os outros. Entenderam que estes diamantes em bruto tinham muita margem de lapidação. Preferiram esperar, escolheram o processo em vez do curto prazo e os resultados falam por si.

Primeiros Resultados Tardios

         Em 1971 no Campeonato da Europa, Carlos Lopes participou na sua primeira grande competição. Terminou em 30º nos 3000 metros obstáculos e 33º (último, sem contar com 2 desistências) nos 10000 metros.

         Em 2009 na sua primeira grande competição a nível sénior Fernando Pimenta foi 8º classificado em K1 1000 metros no Campeonato da Europa.

     Carlos Lopes apenas aos 29 anos conseguiu o seu primeiro grande resultado, sagrando-se campeão do mundo de Corta-Mato. O atleta lusitano foi o campeão mundial mais velho do século XX nesta vertente. O corredor nacional ganhou a Maratona nos JO de 1984 aos 37 anos. Até hoje nenhum atleta venceu pela 1ª vez uma Maratona nos JO ou Mundial com essa idade.

         Fernando Pimenta também aos 29 anos sagrou-se pela primeira vez campeão mundial de K1 1000 metros. Aos 26 anos ganhou o bronze em K1 1000 metros, 1ª medalha mundial num evento olímpico individual. Em toda a história da canoagem apenas Lutz Liwowski ganhou a primeira medalha depois dos 26 anos e também foi campeão em K1 1000 metros depois dos 29 anos.

Pioneiros

         Antes de Carlos Lopes, Portugal tinha apenas o 4º lugar de Manuel Oliveira nos 3000 metros obstáculos nos Jogos Olímpicos de 1964 como um top4 nos Jogos Olímpicos (1º Mundial só houve em 1983) no Atletismo.

         Antes de Fernando Pimenta, Portugal tinha apenas o 5º lugar de Rui Fernandes em K1 500 metros em 1994 como único resultado top5 num mundial ou Jogos Olímpicos num evento olímpico individual.

Completude

         Carlos Lopes é até hoje o único fundista da história a fazer pelo menos 3 vezes top3 (fez 4) na lista mundial do ano nos 10000 metros, a conquistar 3 medalhas no Mundial de Corta-Mato (conquistou 3 Ouros e 2 Pratas) e a estar 3 vezes no top3 na lista mundial do ano na Maratona.

         Durante 2 anos foi campeão do mundo de corta-Mato e campão olímpico na maratona ou líder mundial do ano. Até hoje nunca nenhum atleta foi campeão do mundo de Corta-Mato e na mesma época campeão mundial ou olímpico ou líder mundial do ano na Maratona.

         Durante 3 épocas simultaneamente foi campeão do mundo de corta-mato e ganhou medalhas olímpicas ou foi líder mundial do ano na Maratona. Até 1992 nenhum atleta conseguiu durante 3 anos estar simultaneamente no topo no corta-mato e provas olímpicas. Lismont conseguiu-o por 2 vezes, todos os outros apenas 1. Mesmo hoje apenas Paul Tergat e Kenenisa Bekele com muito melhores condições de recuperação conseguiram superar esta estatística.

       Fernando Pimenta é o único canoísta na história a ganhar medalhas simultaneamente em K1 1000 e K1 5000 (nos mundiais desde 2010) ou K1 10000 (saiu dos Mundiais em 1993) 4 vezes. Apenas Perri o fez por 3 vezes.

    O canoísta luso fez ainda em 3 Mundiais top2 nas duas distâncias e desde 1952 ninguém o consegue fazer por duas vezes! Está a duas medalhas de ser o mais galardoado de sempre nestes eventos.


(Parte II em breve)



terça-feira, 14 de setembro de 2021

Triplo Salto: A nova referência do Atletismo Português


A participação lusitana no triplo salto nos Jogos Olímpicos no século XX foi completamente residual com apenas 2 atletas  de 1956 até 1996. A quase total ausência de condições mínimas para formar atletas nas áreas técnicas explicam as escassas participações de Portugal no sector dos saltos e dos lançamentos.

Na viragem do século estaríamos longe de imaginar, que o Triplo Salto no século XXI estaria a tentar superar a Maratona em medalhas em Mundiais ao Ar Livre e Jogos Olímpicos.

Maratona (7)- Ouro (4)/Prata (2)/Bronze (1)

Triplo Salto (7)- Ouro (3)/Prata (2)/Bronze (2)

10000 metros (5)- Ouro (2)/Prata (2)/Bronze (1)

5000 metros  (4)- Prata (2)/Bronze (2)

1500 metros (4)- Ouro (1)/Bronze (3)

Salto em Comprimento (2)- Bronze (2)

20 Km Marcha (2)- Bronze (2)

50 Km Marcha (1)- Prata (1)- Não é disciplina olímpica no sector feminino

100 metros (1)- Prata (1)

Desde 1985 que a Federação Internacional de Atletismo criou um circuito mundial. As classificações de cada disciplina foram entre 1985-1992 e 2010-2016 por pontuação num conjunto de provas do circuito, dando mais pontos na etapa final. Entre 1993-2009 e a partir de 2017 a classificação é apenas da etapa final, sendo as precursoras o apuramento.

Pelo facto de as provas de 10000 metros e Maratona não fazerem parte do circuito Portugal tem apenas 11 medalhas.

Triplo Salto (4)- Ouro (3)/Bronze (1)

1500 metros (3)- Ouro (1)/Prata (1)/Bronze (1)

Salto em Comprimento (2)- Ouro (1)/Bronze (1)

100 metros (1)- Prata (1)

Peso (1)- Prata (1)

5000 metros (1)- Bronze (1)

Se contabilizarmos os resultados do 1º ao 8º lugar desde 1993 o Triplo Salto lidera com 13. Nos 1500 metros por 10 vezes atletas portugueses conseguiram alcançar o top8.

Os restantes: 

100 metros- 5

Salto em Comprimento-3

200-2

3000,Peso,Disco-1

Desde 1996 as mulheres puderam participar nos Jogos Olímpicos.

Pelo menos 3 Medalhas:

EUA e Rússia- 5

Portugal, Grã-Bretanha, Cazaquistão, Cuba e Ucrânia- 3

Dentro dos países com 3 medalhas somos o melhor. Se se contabilizar os resultados desde 2004 somos o 2º melhor país do Mundo depois dos EUA.

Desde 2003 que se disputa no sector masculino e feminino no mesmo ano o Triplo Salto no circuito mundial.

Os EUA por variadíssimas vezes, Rússia (2005;2008) e Cuba (2010) eram até 2020 os únicos países com 3 atletas no top5 no mesmo ano juntando os resultados masculinos e femininos.

Portugal com o título de Pedo Pichardo, o 4º  de Patrícia Mamona e o 5º de Tiago Pereira juntou-se a este lote sendo no presente ano o único país do mundo a conseguir esta proeza.

Por todas estas razões é absolutamente brilhante o que o Triplo Salto tem feito no desporto português e na própria disciplina a nível mundial.

João Ganço, José Uva, Jorge Pichardo foram os 3 treinadores dos medalhados olímpicos Nélson Évora, Patrícia Mamona e Pedro Pichardo.

Tiago Pereira chegou a liderar a Liga Diamante na presente temporada terminando em 5º e Susana Costa foi 6º em 2016.

Desde 1993 Portugal nunca teve mais de 2 atletas no top8 do Circuito Mundial numa disciplina. O Triplo Salto têm 5!

Quando Pedro Pichardo chegou de Tóquio ficou surpreso com as poucas perguntas dos jornalistas. Em entrevista à TVI disse que queria que os jovens fossem atrás dele e que a disciplina crescesse em Portugal.

Mas infelizmente a comunicação social optou por ocultar todos os feitos que a disciplina tem feito em Portugal para alimentar a polémica entre Nélson Évora e Pedro Pichardo.

Os 2 atletas são os únicos campeões olímpicos do desporto português no século XXI. O ouro Mundial de Nélson Évora em Osaka 2007 foi o início de uma ascensão apoteótica da disciplina no nosso país. A vitória em Pequim 2008 ajudou a criar um legado. Temos excelentes condições climatéricas que propiciem que estes grandes treinadores e outros continuem a lapidar cada vez melhor todos estes diamantes e andamos a perder tempo com polémica.

O meio-fundo e fundo português não soube entender as mudanças do século XXI e está em profunda crise. A marcha nacional sem apoios aos atletas está cada vez mais longe das utópicas prestações colectivas da pretérita década.

Se não entendermos que este não é o caminho estaremos mais perto daqui a 10 anos de olhar para esta disciplina e apenas recordar com nostalgia os seus feitos na história do desporto nacional.

É urgente cessar a polémica e ter foco nos resultados alcançados para motivar todo o tipo de agentes desportivos a intervir na disciplina. Mas será que estaremos para isto?

 

 

domingo, 12 de setembro de 2021

Falsos diagnósticos e o que tem que mudar nos media portugueses

 


Várias vozes criticaram a ausência de primeira página nos diários desportivos da abertura dos Jogos Olímpicos.

Como sempre nestes casos, voltou-se a falar na falta de cultura desportiva de Portugal como causa para esta realidade.

Rotular todos os problemas do desporto nacional como “falta de cultura desportiva” parece cada vez mais uma opção demasiado abstrata que nada nos ajuda a diagnosticar verdadeiramente os problemas nem muito menos apresentar as soluções.

Portugal nos últimos anos têm sido em muitos desportos (futebol,ténis de mesa,canoagem, judo,vela, entre outros) uma referência internacional na organização de eventos. Em quase todos os desportos os comentadores portugueses no Eurosport e residualmente na RTP são mais conhecedores do que por exemplos os seus congéneres espanhóis. O programa de Educação Olímpica do COP foi considerado em 2020 um dos 15 melhores do Mundo.

Já em 1948 Portugal juntamente com Áustria, Bélgica, Canadá, Grã-Bretanha, Grécia, Suíça, Uruguai e Venezuela foi pioneiro na criação do Dia Olímpico.

Evidentemente que existem situações de falta de fair-play em Portugal no desporto, especialmente no futebol. Mas em comparação com os outros países este é certamente um indicador que não estamos atrasados. Basta ver que o futebol é o maior fenómeno de massas da humanidade e Portugal é o quarto país mais seguro do Mundo.

Achar que um dos problemas do desporto português é o excesso de referência à arbitragem é alhearmo-nos da realidade global. Portugal é dos países europeus que menos se fala na arbitragem quando equipas ou seleções nacionais (no futebol e no desporto em geral) perdem contra adversários estrangeiros. Basta ver o recente ataque da imprensa espanhola ao Sporting no futsal e a quase total inexistência de referência à arbitragem do Portugal-França do Euro2020.

Entender o problema da falta de infra-estruturas como algo preponderante para a falta de eficácia do desporto português é ignorar a forma como Cuba tem obtido os seus resultados desportivos ao longo de toda a história. Não será certamente por falta de infra-estruturas que Canoagem, Ciclismo, Judo, Remo, Surf, Taekwondo,Ténis de Mesa, Triatlo e Vela não obtêm melhores resultados.

Atribuir ao monopólio do futebol a culpa pela falta de melhores resultados é também uma falsa questão. No Euro 2016: Bélgica, Islândia e Polónia tiveram maior percentagem de visualização do jogo mais visto dos respectivos países que Portugal que chegou à final. A Alemanha segundo país europeu com melhores resultados colectivos ao longo da história englobando todos os desportos olímpicos teve apenas menos 0,06% de visualização e a seleção germânica foi eliminada nas Meias-Finais.

O Portugal-França teve 70% de share, bem inferior aos 93% na Noruega dos 30 Km de Esqui de Fundo dos JO de 2018 em que Marit Bjørgen terminou a sua carreira com a medalha de Ouro.

Talvez o que falte mais a Portugal seja uma estratégia integrada dos diversos sectores do desporto e uma valorização nos desportos que mais temos capacidade para apresentar resultados.

O problema em Portugal não é neste sentido a “falta de cultura desportiva” mas sim a “falta de quantidade de cultura desportiva”.

Como foi explicado, não precisamos que nos ensinem a valorizar o verdadeiro papel do desporto, a respeitar os outros e a ter competência para alcançar resultados no desporto de alta competição. Precisamos é de aumentar os agentes desportivos nas suas mais variadas vertentes para consolidar essa mudança.

Para esse crescimento é primordial que a comunicação social divulgue o desporto nacional com um propósito definido. Motivando jovens e outros intervenientes para poderem participar activamente no mesmo.

O que se constata é que desde 2010 Portugal foi campeão europeu colectivamente de ténis de mesa, canoagem (K4) e mundial de marcha. Fomos ainda vice-campeões mundiais de surf e vice-campeões europeus de judo e ginástica de trampolins.

Nestes JO a RTP transmitiu apenas 5 minutos do Portugal Alemanha-Ténis de Mesa, só transmitiu a prestação de atletas portugueses no primeiro dia de finais na Canoagem.

A RTP não transmitiu os 20 Km Marcha Masculinos, não transmitiu as provas de surf para além da participação portuguesa. Falhou a maior parte dos momentos das medalhas do Judo e não transmitiu os europeus de ginástica de trampolins que Portugal se sagrou vice-campeão europeu.

A RTP não transmite o campeonato nacional de Andebol (modalidade que estivemos nos JO e somos o país do Mundo que mais está a evoluir a seguir ao Egipto).

O Jornal ABOLA antes dos Jogos Olímpicos fez uma série de entrevistas apenas aos atletas da Natação.

Com a taxa de praticantes de desporto mais baixa da União Europeia e todos outros problemas estruturais que temos sem valorizarmos os desportos que melhores resultados alcançamos jamais chegaremos a outro patamar. É bom que de uma vez por todas se entenda isso.

Transmissão Televisiva Tóquio2020

 

        


    

A transmissão televisiva dos Jogos Olímpicos ao longo da história sempre foi um momento importantíssimo para dar a conhecer ao público novas modalidades e atletas. Muitos desportos pela ausência da sua influência global ou por uma ausência de participação portuguesa tinham nos Jogos Olímpicos, de 4 em 4 anos, a única possibilidade de chegarem aos portugueses.

         Os Jogos Olímpicos eram por isso uma competição altamente democrática, em que uma multiplicidade de desportos se publicitava, mostrando ao espectador a riqueza da diversidade da humanidade através do desporto.

         Desde 2010 os vídeos no YouTube passaram a ter mais de 10 minutos e as federações internacionais começaram a colocar as suas competições oficiais nesta plataforma permitindo a qualquer pessoa no mundo gratuitamente assistir às Taças do Mundo, Circuito Mundial e Campeonato do Mundo das mais variadas modalidades. Outras colocaram as suas provas noutras plataformas, pelo que chegamos a 2021 e praticamente todas as modalidades fora do top10 de desportos mais visualizados no mundo têm as suas competições internacionais do escalão sénior disponibilizadas gratuitamente em directo e em diferido.

         Esta revolução digital permitiu que muitos desportos crescessem e que os seus praticantes se tenham tornado consumidores dos mesmos e não apenas de 4 em 4 anos.

          Muitos países, entre os quais Portugal, apenas tiveram um canal a emitir ao mesmo tempo as competições desportivas. E muitas das vezes, as mesmas foram interrompidas para repetições ou motivos de reportagem.

         Pelo que, ao contrário do que acontecia antigamente, os JO tornaram-se a competição internacional menos acessível dos desportos menos influentes do mundo. Os JO deixaram de estar disponíveis gratuitamente em directo e em diferido. A integralidade dos JO para a maior parte dos países europeus tornou-se apenas disponível através de um serviço pago (Eurosport Player).

         Sabendo que o COI redistribuí 90% do dinheiro que recebe às federações, os direitos televisivos assumem importância primordial para as federações internacionais. As federações são classificadas em função das suas visualizações para a redistribuição económica e para o aumento ou diminuição das suas quotas olímpicas.

         Acabando com um sistema digital que permitia ao consumidor escolher o desporto que queria ver, naturalmente, que os principais desportos (escolhidos pelas televisões) tiveram muito maior acessibilidade que os outros.

         Até a transmissão dos melhores momentos em diferido fora das plataformas das televisões ou do COI foi bloqueada limitando o acesso das mesmas ao telespectador.

         Os JO terminaram e o COI disponibilizou no seu site a transmissão integral de todos os eventos. Mas tudo isto aconteceu, num contexto em que já se conhece os resultados, sendo por isso muito menos atractivo para o consumidor.

         O olimpismo é mais que os Jogos Olímpicos. Os valores olímpicos: excelência, amizade e respeito de todos os desportos estão presente em todas as suas competições ao longo de um ciclo olímpico. Por esta razão desportivamente e não só, urge como espírito olímpico continuar a acompanhar os desportos que preferimos ao longo do ciclo e não apenas nos JO. Contudo não devemos aceitar que os JO se tornem a competições menos acessível ao longo de um ciclo olímpico.

         Eu comecei a seguir dezenas de desportos internacionalmente após os JO de Londres2012 e de Inverno PyongChang2018. Os JO são mais uma competição  de pelo menos 10 que sigo desses desportos ao longo de um ciclo olímpico, mas sem eles nunca tinha tido despoletado em mim interesse de seguir esses desportos.

         Mais do que um fim em si mesmo, os JO têm um legado a todos os níveis para todos nós.

         Os Jogos Olímpicos não terminaram e regressam em Paris2024, aqui no Desporto Total estarão sempre presentes. Este sim, é o verdadeiro legado de Pierre de Coubertin.

Amizade Olímpica

 




A partilha da medalha de Ouro no Salto em Altura entre o italiano Gianmarco Tamberi e o catari Mutaz Essa Barshim foi considerado quase unanimemente como um dos momentos de Tóquio2020.

A marca de 2.37 por si só está longe de ter sido uma das melhores performances desportivas destes Jogos Olímpicos.

        O factor relevante para que este concurso se tenha eternizado na história olímpica foi o facto de a partilha da glória olímpica ter acontecido por decisão dos próprios atletas sendo por isso considerado revelador de um grande espírito olímpico.

Ambos os atletas infelizmente passaram por lesões graves ao longo da carreira e têm-se apoiado mutuamente nesses momentos difíceis. Contudo foi necessário ter existido esta vontade de partilhar o mais alto lugar do pódio para que o mundo ficasse a conhecer a sua amizade.

Valorizar a amizade entre estes dois atletas é fantástico, pensar que o valor olímpico de amizade foi neste caso efectivado por esta atitude é um grande erro que estamos a cometer.

Em primeiro lugar quando se fala em desportivismo fala-se sobretudo numa atitude humanitária em prol do outro sem ter proveito próprio pela mesma. Como no caso do canoísta português Sérgio Maciel, que foi entrevistado na página do facebook do Desporto Total e deixou Marco Apura passar-lhe sobre a meta no Mundial de Maratonas C1 Júnior porque este se tinha enganado no trajecto. O atleta em causa abdicou de ser campeão mundial em nome da verdade desportiva. Outros casos de atletas a falharem deliberadamente penaltys da sua equipa que foram marcados incorretamente ou situações em que não se aproveita de uma lesão alheia para tirar dividendo próprio.

A situação vivida no Salto em Altura é completamente diferente de tudo isto. Mutaz Essa Barshim ao sagrar-se campeão olímpico tornou-se o segundo atleta na história do Qatar a chegar ao lugar mais alto do pódio nuns Jogos Olímpicos e o primeiro de ascendência catari a fazê-lo. O fabuloso saltador do Qatar há muito tempo que é presença assídua na academia Aspire no seu país e uma fonte de inspiração para todos os sectores do desporto, trabalhando em projectos multidesportivos e colaborando com o futebol.

O valor monetário que o país dá aos atletas que ganham medalhas não foi divulgado. Em 2015 cada jogador de Andebol recebeu 90 mil euros por cada vitória no Mundial. Um título de vice-campeão olímpico poderia diminuir a influência do atleta no seu país face ao halterofilista Fares Ibrahim que seria o único campeão olímpico da história do país. Chegar ao todo do olimpo permite-lhe cimentar a sua posição prestigiante no país e com certeza melhorar a sua condição financeira.

        Gianmarco Tamberi passou as fasquias com maior dificuldade que o seu rival, na qualificação foi pior, a probabilidade de ganhar a final seria reduzida. Ao aceitar a proposta do seu amigo garantiu 180 mil euros de prémio, caso tivesse ficado em 2º lugar teria recebido 90 mil euros. A valorização da sua imagem enquanto campeão olímpico permite concluir que com esta atitude ele ganhou mais de 100 mil euros.

Pierre de Coubertin disse “O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas sim participar, assim como o mais importante na vida não é o triunfo, é a luta. O essencial não é ter vencido, mas sim ter lutado bem.”

Portanto resumidamente, em nome da amizade ganharam a glória olímpica, mais de 100 mil euros em prémios e não perderam a nenhum nível absolutamente nada porque se recusaram a terminar a sua luta.

    Aquilo que distingue o desporto de outras áreas é a sua capacidade objectiva de superação de barreiras e de visualização efectiva de resultados. Uma competição desportiva existe no fundo para através da luta honesta dos intervenientes chegarmos a um vencedor.

Por este motivo existem os penaltys no futebol e encontros no Ténis que podem ultrapassar as 6 horas de duração.

A vitória não sendo o mais importante, está na essência do desporto. É ela que distingue a excelência (outro valor olímpico) do muito bom, a superação total da magnífica superação.

Imaginamos a final do Euro2020 chegar aos Penaltys e Inglaterra e Itália decidirem que os 2 ganham o Europeu e abdicam de disputar os penaltys?

O que o olimpismo nos quer ensinar é que devemos saber ganhar e saber perder. Respeitarmo-nos independentemente do resultado desportivo.

    Estes valores olimpismos foram efectivados pelos croatas Nikola Mektic/Mate Pavic (Ouro) e Cilic/Dodig (Prata) ao pousarem na cerimónia de entrega de medalhas dos pares masculinos no Ténis simultaneamente junto ao 2º lugar do pódio.

Esta imagem praticamente ignorada em todo o mundo pretende transmitir que nenhum par é superior ao outro pelo resultado desportivo. Ambos representaram a Croácia dignamente e respeitam-se apesar da diferença desportiva.

Imaginemos que os dois pares se recusavam a jogar o super tie-break, seria correcto dar 2 medalhas de Ouro à Croácia?Porque motivo alguns desportos podem ter dois campeões e outros apenas um?

O facto de serem os atletas a tomarem esta decisão torna este desfecho ainda mais injusto. Se não se alterarem as regras já sabemos que se tal situação ocorrer com indivíduos do mesmo país, vão-se recusar a lutar para dar 2 ouros ao país. Outros atletas podem combinar entre eles falhar propositadamente que ganharam os dois. Um atleta pode aliciar financeiramente o outro para falhar porque ganharam também os dois.

        Existe tudo a ganhar e nada a perder. E sem incerteza não existe luta e sem luta os verdadeiros valores olímpicos não estão a ser efectivados. Não confundamos a competição desportiva com o pós-competição.

Contextualização Ouro Pichardo Tóquio2020

 


O atleta português com 17,98 conseguiu a 2ª melhor marca regular de sempre nos Jogos Olímpicos. As suas 3 marcas de hoje e a marca da qualificação davam-lhe o título olímpico tornando-se uma das grandes referência do Atletismo Olímpico de Tóquio.

Pichardo venceu com a 2ª maior distância para o 2º classificado desde 1932. Tornou-se também no 2º atleta a ganhar uma medalha nos JO e a fazer top4 nas primeiras 4 grandes competições que participou desde que existem Mundiais no Atletismo, algo que nem Jonathan Edwards o conseguiu.

Pedro Pichardo a lutar pelo recorde do mundo e por se tornar o maior triplista da história. Aos 29 Jonathan Edwards bateu o recorde mundial. Em 2022 Pichardo terá 29 anos.

 Pedro Pablo Pichardo teve de sair de Cuba para continuar a competir, rejeitou propostas de outros países mais vantajosas financeiramente e escolheu Portugal. Era em Portugal que iria encontrar uma estrutura propícia para relançar a sua carreira. No dia 9/12/2020 o Índice de Política de Integração de Migrantes classificou 🇵🇹 como o 3º país do Mundo que melhor integra imigrantes. Uma classificação que comprova a história secular do nosso país de interculturalidade.

Começou a ser treinado pelo pai aos 6 anos de idade. Depois da lesão que lhe tirou o sonho olímpico de 2016, de lhe ser impedido treinar com o pai, viu-se obrigado a mudar completamente a sua vida para prosseguir a sua carreira. Não virou a cara à luta e foi em Portugal que alcançou os melhores resultados da carreira: as vitórias na Liga Diamante em 2018 e 2021 e a cereja no topo do bolo, a glória olímpica. Esta é por isso uma vitória de Portugal em todo o seu esplendor.

Contextualização bronze Fernando Pimenta Tóquio2020

O canoísta tornou-se o 1º atleta português na história a conquistar 4 medalhas consecutivas no mesmo evento olímpico em Mundiais e JO (2017,2018,2019,2020).

         Fernando Pimenta teve muitas dificuldades quando se iniciou na modalidade, virando várias vezes o barco.Contudo nunca desistiu de trabalhar mais para se superar.

Numa modalidade sem medalhas individuais em mundiais de eventos olímpicos antes dele, tornou-se o primeiro atleta mundial a ser campeão mundial simultaneamente em K1 1000 metros e K1 5000 metros.

Conquistou já 105 medalhas internacionais e bateu hoje na semifinal o recorde olímpico da distância. Com uma perseverança inacreditável aponta já a Brisbane2032 e lança uma motivação aos jovens para lhe seguirem o seu legado.

A campeoníssima italiana Josefa Idem sagrou-se pela 1ª vez campeão olímpica aos 36 anos e foi vice-campeã olímpica aos 44 anos. História continuará a ser escrita.


 

sábado, 11 de setembro de 2021

TEKA- A primeira equipa mediática do Andebol

 



        O TEKA Santander marcou a década de 90 do Andebol europeu. Neste período, o clube cantábrio foi 1 vez campeão europeu, 1 vez finalista, 1 semifinalista, ganhou 2 Taças das Taças, 1 Taça IHF (actualmente Liga Europeia) e foi finalista da Taça das Taças por mais 2 ocasiões.

         O primeiro grande feito da equipa foi a vitória na Taça das Taças perante o Drott da Suécia em 1990.

         Mats Olsson conhecia muito bem os seus compatriotas e foi peça fundamental ao ler antecipadamente os seus remates aos 9 metros e com saídas soberbas aos 6 metros.

         Com os pontas Cabãnas e Ruíz a trabalharem muito bem na circulação e no jogo para o pivot Puig e a 1ª linha com Chechu Villaldea, Melo e Arason sempre à procura da melhor solução de tiro em construção atacante conseguiram adormecer o conjunto sueco. Os livres de 7 metros ganhos inteligentemente e a defesa excepcional ao centro foram as restantes premissas que permitiram a vitória apesar de apenas 3 golos aos 9 metros.

         Em 1992 o TEKA tem a sua primeira grande participação na principal prova de clubes da Europa. Eliminaram o Barcelona, campeão europeu na altura, jogando com um sistema inédito de 2 pivots, Luisón a contribuir para a primeira circulação e depois juntando a Puig, já com Medvedev a lateral direito o TEKA abusava da sustentação de jogo. Ia triando ritmo ao jogo, transpondo-o para uma maior dinâmica de confrontos físicos que era superior.

         Na final contra o Zagreb fruto duma incrível defesa agressiva 3x3 não conseguiram ter nenhuma fluidez de jogo, com demasiada pressão sobre o portador da bola tiveram tremendas dificuldades no ataque organizado e emocionalmente não estiveram bem no contra-ataque. Deixaram o Zagreb fazer muito 1x1 e 2x2 que conseguiu arranjar alternativas à marcação impiedosa a Puc.

         Em 1993 vence a Taça IHF contra o Dormagen já com Yakimovich e Dujshebaev. Com Yakimovich ganham maior capacidade de remate exterior em situações que o colectivo não estava a funcionar. Com Dujshebaev ganham dinamismo. Capacidade de fazer 1x1 e romper por espaços laterais e fazer o 1x1 no meio. Com Garralda temível nos movimentos interiores para rematar o TEKA tinha uma primeira linha fortíssima.

         Em 1994 apesar de todas as grandes individualidades, venceram com dificuldades o seu grupo no acesso à final. Em 6 jogos marcaram e sofreram 136 golos. E tiveram desvantagem no confronto directo com o 2ºs e 3º classificados.

         Na final contra o nosso ABC tiveram imensas dificuldades. O 5x1 defensivo de Donner retirou Dujshebaev de boa parte do jogo no Flávio Sá Leite. Yakimovich também esteve muito preso de movimentos. Apenas Villaldea mais solto deu solução de tiro exterior.

         Nas duas mãos aproveitaram essencialmente o desgaste físico do ABC para resolver individualmente pelas 2 estrelas. Cederam inúmeros contra-ataques e estiveram geralmente bem na organização defensiva.

         A diferença esteve que na 2ª mão fizeram mais bloqueios sem bola e Yakimovich esteve mais móvel a procurar o melhor espaço para o remate.  Apesar de todas as dificuldades sagraram-se campeões europeus pela primeira vez na história.

         Em 1996 na final da Taça das Taças faltou agressividade para marcar Zerber e Baumgartner, 2 dos mais temíveis rematadores da década de 1990, fizeram uma defesa 4x2 demasiado tarde e não conseguiram voltar à glória europeia.

         Em 1999 já com um conjunto remodelado não tiveram ritmo para a dinâmica do emergente do Ademar León também na final da Taça das Taças.

         Não conseguiram impor velocidade e variedade ao jogo e com Yakimovich marcadíssimo tornaram-se muito previsíveis. Apesar de Ortega e Soltonyi estarem bem no tiro exterior o jogo era demasiado em esforço, para além dos contra-ataques desperdiçados.

 Estes resultados podem-se considerar extraordinários no contexto em que o clube não tinha historial europeu até 1989, mas também se pode entender que podiam ter sido melhor, se virmos que este conjunto contou nas suas fileiras durante muitos anos com Mats Olsson, Dujshebaev e Yakimovich entre tantas outras grandes individualidades.

         O TEKA é um pouco com o PSG na actualidade, um projecto baseado em valores individuais mas que não conseguiu deixar uma ideia de jogo para a eternidade como outros conjuntos. A conexão entre Yakimovich e Dujshebaev esteve longe da qualidade individual dos mesmos. 

        Yakimovich foi um produto da escola bielorussa em que existe uma enorme dinâmica de jogo, no SKA Minsk fazia vários cruzamentos com o lateral direito e também ia muito à zona central, num jogo com constantes trocas de posição e de enorme criatividade de trocas de bola quer entre a 1ª linha quer com a 2ª linha.

         Dujshebaev foi um produto da escola russa em que os centrais driblavam mais e marcavam como sua aquela zona, existindo menos trocas de posição, marcavam os ritmos de jogo da equipa e faziam mais 1x1, havia mais mudança de velocidade do que intensidade, o jogo era mais mecânico que dinâmico. 

        O mesmo que Karabatic joga um jogo de mais 1x1 físico, de sustentação, de remate apertado, de assistências cirúrgicas mesmo num ritmo mais baixo. Já Mikkel Hansen prefere um jogo mais rápido de circulação de bola, com maior espaçamento entre os jogadores, mais aberturas para os pontas, mais transições e contra-ataque, mais soluções rápidas de remates aos 9 metros. E ao longo do tempo não conseguiram encaixar como era suposto e por isso o PSG ainda não foi campeão europeu.


        TEKA Santander uma equipa que ficou para a história do Andebol, na minha opinião, mais pela conceptualização do jogo do que pelos seus resultados. A primeira equipa mediática do Andebol provou-nos que as melhores individualidades não são garantia de melhores resultados. 


ABC- A maior surpresa da História do Andebol (2ª Parte)

 



Na final com o TEKA, o ABC provou ser taticamente exímio seguindo muito do modelo soviético. Os contra-ataques com 3 jogadores envolvidos com o Tchikoulaev a progredir, o Paulo Faria a acompanhar e o Álvaro Martins solto na ponta. A envolvência dos pontas na circulação para deixar os laterais rematar mais à vontade, especialmente do lado direito. A largura da 1ª linha para depois entrar o passe picado (estilo soviético) de Tchikoulaev (parecia que tinha uma regra e esquadro) a Ricardo Tavares. Os Flys de combinação entre Paulo Faria-Rui Almeida. A circulação lenta  para depois Bolotsky de surpresa estoirar. E claro o 5x1 defensivo que não deixava o adversário trocar a bola, que o obrigava a fazer cruzamentos e a rematar apertado ou então a perder bolas que davam os tais contra-ataques.

O Dujshebaev foi muitíssimo bem marcado na 1ª mão. Foi assim que o ABC esteve a vencer por 9-2 na 1ª mão e 4-7 na 2ª. A falta de maior qualidade no ataque organizado hipotecou a conquista da Taça. Na 1ª mão faltou algum acerto nos 7 metros compensado por um fenomenal Paulo Morgado aos 6 metros, que nesta final venceu o duelo particular com Mats Olsson.  Tudo, mas mesmo tudo era colectivo.

Quando a equipa ficava cansada, tinha mais dificuldade porque não tinha tantas soluções individuais como o adversário. Isto verificou-se ainda mais na 2ª mão em que os bloqueios do TEKA permitiram que Yakimovich e Dujshebaev resolvessem individualmente. Repare que na 2ª parte o rendimento da equipa caiu por isso mesmo nas duas mãos.

Na 2ª mão a equipa conseguiu libertar mais os pontas na parte final do encontro, mas demorou demasiado tempo nos ataques para recuperar no marcador.  Já o TEKA tinha problemas e Yakimovich vinha para o meio e estoirava. O último golo do TEKA é sintomático.  Dujshebaev faz uma simulação, curta elevação, remate e resolve o jogo. Tudo criado sozinho. Se essa bola fosse por cima se calhar hoje estaríamos a falar de um ABC campeão europeu.

         Desde 1980 ainda só não vi finais da TCE/LC de 1981,1982,1987,2002 e 2004 e posso garantir que nunca vi um ambiente genuíno de apoio à equipa como o ABC na final de 1994.

         Os inúmeros balões brancos e amarelos, a alegria das pessoas de estarem a ver um momento histórico e valorizarem cada segundo dessa final. O ABC era uma equipa que jogava com alma, poderia não ter as soluções individuais dos adversários, mas tinha uma crença infindável no seu processo de jogo, uma serenidade inacreditável para quem não tinha experiência destes momentos e uma postura dentro e fora do campo absolutamente exemplar.   O ABC era a paixão do Andebol no seu mais estado puro. Quando via jogos do Metalopastika via a força transmitida pelos seus adeptos à equipa, como se eles fossem os melhores e nada os demovesse do sucesso. No ABC o contexto era diferente. As imagens televisivas mostram adeptos que mais do que tudo estão a viver um sonho, estavam a festejar estar naquele jogo e ter essa experiência que julgavam impossível.

         Num contexto em que o clube tinha ordenados em atraso, não tinha condições financeiras para viajar ao estrangeiro e foi o presidente da Federação Luís Santos que viabilizou as verbas. Houve pedidos de bilhetes de todo o país para ver a final com o TEKA e a equipa teve ainda um apoio inacreditável em Santander.

         Pode o David (ABC) não ter batido o Golias (TEKA) mas a entrega, devoção, crença e qualidade andebolística desta equipa jamais poderá ser esquecida.

         Todas as condicionantes desta utópica epopeia fazem certamente que Pierre Coubertin esteja orgulho desta equipa do ABC. Como dizia o fundador dos Jogos Olímpicos, da era moderna, mais importante que vencer é ter lutado bem. O ABC lutou contra todas as adversidades: históricas, desportivas, arbitrais, financeiras, fair-play (Nimes fora de casa) e logísticas sem nunca desistir do seu sonho.

     Paulo Morgado, Carlos Ferreia, Paulo Torres, David Cunha, Miguel Valentim,Vladimir Bolotsky, Paulo Faria, Viktor Tchikoulaev, Rui Almeida, Ricardo Tavares, Álvaro Martins, Eduardo Filipe, Konstantin Dolgov, Carlos Galambas, José Ricardo Costa, Mário Costa e Carlos Brito comandados pelo genial Aleksander Donner replicaram no campo todo o sonho de uma cidade, país e do próprio Andebol.

         Desafiaram os seus limites e superaram-se sendo um exemplo para todo o Andebol Mundial e indubitavelmente todos os desportos colectivos. Ao longo da história muito poucas equipas noutros desportos alcançaram um resultado destes com este contexto.

         E a prova mais evidente de todo o legado deixado por esta equipa é o sucesso actual que vivemos no nosso Andebol.

         Efectivamente não começamos do nada. Já tínhamos esta força intrínseca de superação dentro de nós, faltava apenas activá-la.

         Mediaticamente e simbolicamente (ainda para mais em todo o contexto que não vale a pena repetir) têm muito mais impacto a seleção de Andebol participar nos Jogos Olímpicos do que ter um clube vice-campeão europeu.

         No plano desportivo o ABC indubitavelmente alcançou o maior feito da história do Andebol Nacional.

         É bom que entendemos a história para construir um melhor futuro e não cometer os erros cometidos no nosso Andebol na viragem do século. Tudo começou no sonho de Donner, que o continuemos a homenagear seguindo o seu legado. Como diz Paulo Jorge Pereira “somos malucos, mas somos mais felizes assim”.