domingo, 12 de setembro de 2021

Falsos diagnósticos e o que tem que mudar nos media portugueses

 


Várias vozes criticaram a ausência de primeira página nos diários desportivos da abertura dos Jogos Olímpicos.

Como sempre nestes casos, voltou-se a falar na falta de cultura desportiva de Portugal como causa para esta realidade.

Rotular todos os problemas do desporto nacional como “falta de cultura desportiva” parece cada vez mais uma opção demasiado abstrata que nada nos ajuda a diagnosticar verdadeiramente os problemas nem muito menos apresentar as soluções.

Portugal nos últimos anos têm sido em muitos desportos (futebol,ténis de mesa,canoagem, judo,vela, entre outros) uma referência internacional na organização de eventos. Em quase todos os desportos os comentadores portugueses no Eurosport e residualmente na RTP são mais conhecedores do que por exemplos os seus congéneres espanhóis. O programa de Educação Olímpica do COP foi considerado em 2020 um dos 15 melhores do Mundo.

Já em 1948 Portugal juntamente com Áustria, Bélgica, Canadá, Grã-Bretanha, Grécia, Suíça, Uruguai e Venezuela foi pioneiro na criação do Dia Olímpico.

Evidentemente que existem situações de falta de fair-play em Portugal no desporto, especialmente no futebol. Mas em comparação com os outros países este é certamente um indicador que não estamos atrasados. Basta ver que o futebol é o maior fenómeno de massas da humanidade e Portugal é o quarto país mais seguro do Mundo.

Achar que um dos problemas do desporto português é o excesso de referência à arbitragem é alhearmo-nos da realidade global. Portugal é dos países europeus que menos se fala na arbitragem quando equipas ou seleções nacionais (no futebol e no desporto em geral) perdem contra adversários estrangeiros. Basta ver o recente ataque da imprensa espanhola ao Sporting no futsal e a quase total inexistência de referência à arbitragem do Portugal-França do Euro2020.

Entender o problema da falta de infra-estruturas como algo preponderante para a falta de eficácia do desporto português é ignorar a forma como Cuba tem obtido os seus resultados desportivos ao longo de toda a história. Não será certamente por falta de infra-estruturas que Canoagem, Ciclismo, Judo, Remo, Surf, Taekwondo,Ténis de Mesa, Triatlo e Vela não obtêm melhores resultados.

Atribuir ao monopólio do futebol a culpa pela falta de melhores resultados é também uma falsa questão. No Euro 2016: Bélgica, Islândia e Polónia tiveram maior percentagem de visualização do jogo mais visto dos respectivos países que Portugal que chegou à final. A Alemanha segundo país europeu com melhores resultados colectivos ao longo da história englobando todos os desportos olímpicos teve apenas menos 0,06% de visualização e a seleção germânica foi eliminada nas Meias-Finais.

O Portugal-França teve 70% de share, bem inferior aos 93% na Noruega dos 30 Km de Esqui de Fundo dos JO de 2018 em que Marit Bjørgen terminou a sua carreira com a medalha de Ouro.

Talvez o que falte mais a Portugal seja uma estratégia integrada dos diversos sectores do desporto e uma valorização nos desportos que mais temos capacidade para apresentar resultados.

O problema em Portugal não é neste sentido a “falta de cultura desportiva” mas sim a “falta de quantidade de cultura desportiva”.

Como foi explicado, não precisamos que nos ensinem a valorizar o verdadeiro papel do desporto, a respeitar os outros e a ter competência para alcançar resultados no desporto de alta competição. Precisamos é de aumentar os agentes desportivos nas suas mais variadas vertentes para consolidar essa mudança.

Para esse crescimento é primordial que a comunicação social divulgue o desporto nacional com um propósito definido. Motivando jovens e outros intervenientes para poderem participar activamente no mesmo.

O que se constata é que desde 2010 Portugal foi campeão europeu colectivamente de ténis de mesa, canoagem (K4) e mundial de marcha. Fomos ainda vice-campeões mundiais de surf e vice-campeões europeus de judo e ginástica de trampolins.

Nestes JO a RTP transmitiu apenas 5 minutos do Portugal Alemanha-Ténis de Mesa, só transmitiu a prestação de atletas portugueses no primeiro dia de finais na Canoagem.

A RTP não transmitiu os 20 Km Marcha Masculinos, não transmitiu as provas de surf para além da participação portuguesa. Falhou a maior parte dos momentos das medalhas do Judo e não transmitiu os europeus de ginástica de trampolins que Portugal se sagrou vice-campeão europeu.

A RTP não transmite o campeonato nacional de Andebol (modalidade que estivemos nos JO e somos o país do Mundo que mais está a evoluir a seguir ao Egipto).

O Jornal ABOLA antes dos Jogos Olímpicos fez uma série de entrevistas apenas aos atletas da Natação.

Com a taxa de praticantes de desporto mais baixa da União Europeia e todos outros problemas estruturais que temos sem valorizarmos os desportos que melhores resultados alcançamos jamais chegaremos a outro patamar. É bom que de uma vez por todas se entenda isso.

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