sábado, 11 de setembro de 2021

TEKA- A primeira equipa mediática do Andebol

 



        O TEKA Santander marcou a década de 90 do Andebol europeu. Neste período, o clube cantábrio foi 1 vez campeão europeu, 1 vez finalista, 1 semifinalista, ganhou 2 Taças das Taças, 1 Taça IHF (actualmente Liga Europeia) e foi finalista da Taça das Taças por mais 2 ocasiões.

         O primeiro grande feito da equipa foi a vitória na Taça das Taças perante o Drott da Suécia em 1990.

         Mats Olsson conhecia muito bem os seus compatriotas e foi peça fundamental ao ler antecipadamente os seus remates aos 9 metros e com saídas soberbas aos 6 metros.

         Com os pontas Cabãnas e Ruíz a trabalharem muito bem na circulação e no jogo para o pivot Puig e a 1ª linha com Chechu Villaldea, Melo e Arason sempre à procura da melhor solução de tiro em construção atacante conseguiram adormecer o conjunto sueco. Os livres de 7 metros ganhos inteligentemente e a defesa excepcional ao centro foram as restantes premissas que permitiram a vitória apesar de apenas 3 golos aos 9 metros.

         Em 1992 o TEKA tem a sua primeira grande participação na principal prova de clubes da Europa. Eliminaram o Barcelona, campeão europeu na altura, jogando com um sistema inédito de 2 pivots, Luisón a contribuir para a primeira circulação e depois juntando a Puig, já com Medvedev a lateral direito o TEKA abusava da sustentação de jogo. Ia triando ritmo ao jogo, transpondo-o para uma maior dinâmica de confrontos físicos que era superior.

         Na final contra o Zagreb fruto duma incrível defesa agressiva 3x3 não conseguiram ter nenhuma fluidez de jogo, com demasiada pressão sobre o portador da bola tiveram tremendas dificuldades no ataque organizado e emocionalmente não estiveram bem no contra-ataque. Deixaram o Zagreb fazer muito 1x1 e 2x2 que conseguiu arranjar alternativas à marcação impiedosa a Puc.

         Em 1993 vence a Taça IHF contra o Dormagen já com Yakimovich e Dujshebaev. Com Yakimovich ganham maior capacidade de remate exterior em situações que o colectivo não estava a funcionar. Com Dujshebaev ganham dinamismo. Capacidade de fazer 1x1 e romper por espaços laterais e fazer o 1x1 no meio. Com Garralda temível nos movimentos interiores para rematar o TEKA tinha uma primeira linha fortíssima.

         Em 1994 apesar de todas as grandes individualidades, venceram com dificuldades o seu grupo no acesso à final. Em 6 jogos marcaram e sofreram 136 golos. E tiveram desvantagem no confronto directo com o 2ºs e 3º classificados.

         Na final contra o nosso ABC tiveram imensas dificuldades. O 5x1 defensivo de Donner retirou Dujshebaev de boa parte do jogo no Flávio Sá Leite. Yakimovich também esteve muito preso de movimentos. Apenas Villaldea mais solto deu solução de tiro exterior.

         Nas duas mãos aproveitaram essencialmente o desgaste físico do ABC para resolver individualmente pelas 2 estrelas. Cederam inúmeros contra-ataques e estiveram geralmente bem na organização defensiva.

         A diferença esteve que na 2ª mão fizeram mais bloqueios sem bola e Yakimovich esteve mais móvel a procurar o melhor espaço para o remate.  Apesar de todas as dificuldades sagraram-se campeões europeus pela primeira vez na história.

         Em 1996 na final da Taça das Taças faltou agressividade para marcar Zerber e Baumgartner, 2 dos mais temíveis rematadores da década de 1990, fizeram uma defesa 4x2 demasiado tarde e não conseguiram voltar à glória europeia.

         Em 1999 já com um conjunto remodelado não tiveram ritmo para a dinâmica do emergente do Ademar León também na final da Taça das Taças.

         Não conseguiram impor velocidade e variedade ao jogo e com Yakimovich marcadíssimo tornaram-se muito previsíveis. Apesar de Ortega e Soltonyi estarem bem no tiro exterior o jogo era demasiado em esforço, para além dos contra-ataques desperdiçados.

 Estes resultados podem-se considerar extraordinários no contexto em que o clube não tinha historial europeu até 1989, mas também se pode entender que podiam ter sido melhor, se virmos que este conjunto contou nas suas fileiras durante muitos anos com Mats Olsson, Dujshebaev e Yakimovich entre tantas outras grandes individualidades.

         O TEKA é um pouco com o PSG na actualidade, um projecto baseado em valores individuais mas que não conseguiu deixar uma ideia de jogo para a eternidade como outros conjuntos. A conexão entre Yakimovich e Dujshebaev esteve longe da qualidade individual dos mesmos. 

        Yakimovich foi um produto da escola bielorussa em que existe uma enorme dinâmica de jogo, no SKA Minsk fazia vários cruzamentos com o lateral direito e também ia muito à zona central, num jogo com constantes trocas de posição e de enorme criatividade de trocas de bola quer entre a 1ª linha quer com a 2ª linha.

         Dujshebaev foi um produto da escola russa em que os centrais driblavam mais e marcavam como sua aquela zona, existindo menos trocas de posição, marcavam os ritmos de jogo da equipa e faziam mais 1x1, havia mais mudança de velocidade do que intensidade, o jogo era mais mecânico que dinâmico. 

        O mesmo que Karabatic joga um jogo de mais 1x1 físico, de sustentação, de remate apertado, de assistências cirúrgicas mesmo num ritmo mais baixo. Já Mikkel Hansen prefere um jogo mais rápido de circulação de bola, com maior espaçamento entre os jogadores, mais aberturas para os pontas, mais transições e contra-ataque, mais soluções rápidas de remates aos 9 metros. E ao longo do tempo não conseguiram encaixar como era suposto e por isso o PSG ainda não foi campeão europeu.


        TEKA Santander uma equipa que ficou para a história do Andebol, na minha opinião, mais pela conceptualização do jogo do que pelos seus resultados. A primeira equipa mediática do Andebol provou-nos que as melhores individualidades não são garantia de melhores resultados. 


Sem comentários:

Enviar um comentário