Na
final com o TEKA, o ABC provou ser taticamente exímio seguindo muito do modelo
soviético. Os contra-ataques com 3 jogadores envolvidos com o Tchikoulaev a
progredir, o Paulo Faria a acompanhar e o Álvaro Martins solto na ponta. A
envolvência dos pontas na circulação para deixar os laterais rematar mais à
vontade, especialmente do lado direito. A largura da 1ª linha para depois
entrar o passe picado (estilo soviético) de Tchikoulaev (parecia que tinha uma
regra e esquadro) a Ricardo Tavares. Os Flys de combinação entre Paulo
Faria-Rui Almeida. A circulação lenta para depois Bolotsky de surpresa estoirar. E
claro o 5x1 defensivo que não deixava o adversário trocar a bola, que o
obrigava a fazer cruzamentos e a rematar apertado ou então a perder bolas que
davam os tais contra-ataques.
O
Dujshebaev foi muitíssimo bem marcado na 1ª mão. Foi assim que o ABC esteve a
vencer por 9-2 na 1ª mão e 4-7 na 2ª. A falta de maior qualidade no ataque
organizado hipotecou a conquista da Taça. Na 1ª mão faltou algum acerto nos 7
metros compensado por um fenomenal Paulo Morgado aos 6 metros, que nesta final
venceu o duelo particular com Mats Olsson. Tudo, mas mesmo tudo era colectivo.
Quando
a equipa ficava cansada, tinha mais dificuldade porque não tinha tantas
soluções individuais como o adversário. Isto verificou-se ainda mais na 2ª mão
em que os bloqueios do TEKA permitiram que Yakimovich e Dujshebaev resolvessem
individualmente. Repare que na 2ª parte o rendimento da equipa caiu por isso
mesmo nas duas mãos.
Na
2ª mão a equipa conseguiu libertar mais os pontas na parte final do encontro,
mas demorou demasiado tempo nos ataques para recuperar no marcador. Já o TEKA tinha problemas e Yakimovich vinha
para o meio e estoirava. O último golo do TEKA é sintomático. Dujshebaev faz uma simulação, curta elevação,
remate e resolve o jogo. Tudo criado sozinho. Se essa bola fosse por cima se
calhar hoje estaríamos a falar de um ABC campeão europeu.
Desde 1980 ainda só não vi finais da TCE/LC de
1981,1982,1987,2002 e 2004 e posso garantir que nunca vi um ambiente genuíno de
apoio à equipa como o ABC na final de 1994.
Os inúmeros balões brancos e amarelos, a alegria das pessoas
de estarem a ver um momento histórico e valorizarem cada segundo dessa final. O
ABC era uma equipa que jogava com alma, poderia não ter as soluções individuais
dos adversários, mas tinha uma crença infindável no seu processo de jogo, uma
serenidade inacreditável para quem não tinha experiência destes momentos e uma
postura dentro e fora do campo absolutamente exemplar. O ABC era a paixão do Andebol no seu mais estado puro. Quando via
jogos do Metalopastika via a força transmitida pelos seus adeptos à equipa,
como se eles fossem os melhores e nada os demovesse do sucesso. No ABC o
contexto era diferente. As imagens televisivas mostram adeptos que mais do que
tudo estão a viver um sonho, estavam a festejar estar naquele jogo e ter essa
experiência que julgavam impossível.
Num contexto em que o clube tinha ordenados em atraso, não
tinha condições financeiras para viajar ao estrangeiro e foi o presidente da
Federação Luís Santos que viabilizou as verbas. Houve pedidos de bilhetes de
todo o país para ver a final com o TEKA e a equipa teve ainda um apoio
inacreditável em Santander.
Pode o David (ABC) não ter batido o Golias (TEKA) mas a
entrega, devoção, crença e qualidade andebolística desta equipa jamais poderá
ser esquecida.
Todas as condicionantes desta utópica epopeia fazem
certamente que Pierre Coubertin esteja orgulho desta equipa do ABC. Como dizia
o fundador dos Jogos Olímpicos, da era moderna, mais importante que vencer é
ter lutado bem. O ABC lutou contra todas as adversidades: históricas,
desportivas, arbitrais, financeiras, fair-play (Nimes fora de casa) e
logísticas sem nunca desistir do seu sonho.
Paulo Morgado, Carlos Ferreia, Paulo Torres, David Cunha,
Miguel Valentim,Vladimir Bolotsky, Paulo Faria, Viktor Tchikoulaev, Rui
Almeida, Ricardo Tavares, Álvaro Martins, Eduardo Filipe, Konstantin Dolgov,
Carlos Galambas, José Ricardo Costa, Mário Costa e Carlos Brito comandados pelo
genial Aleksander Donner replicaram no campo todo o sonho de uma cidade, país e
do próprio Andebol.
Desafiaram os seus limites e superaram-se sendo um exemplo
para todo o Andebol Mundial e indubitavelmente todos os desportos colectivos.
Ao longo da história muito poucas equipas noutros desportos alcançaram um
resultado destes com este contexto.
E a prova mais evidente de todo o legado deixado por esta
equipa é o sucesso actual que vivemos no nosso Andebol.
Efectivamente não começamos do nada. Já tínhamos esta força
intrínseca de superação dentro de nós, faltava apenas activá-la.
Mediaticamente e simbolicamente (ainda para mais em todo o contexto
que não vale a pena repetir) têm muito mais impacto a seleção de Andebol
participar nos Jogos Olímpicos do que ter um clube vice-campeão europeu.
No plano desportivo o ABC indubitavelmente alcançou o maior
feito da história do Andebol Nacional.
É bom que entendemos a história para construir um melhor
futuro e não cometer os erros cometidos no nosso Andebol na viragem do século.
Tudo começou no sonho de Donner, que o continuemos a homenagear seguindo o seu
legado. Como diz Paulo Jorge Pereira “somos malucos, mas somos mais felizes
assim”.

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