quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Carlos Lopes e Fernando Pimenta: As semelhanças dos campeões (Parte II)

 

Qualidade dos adversários e respectivas condições

         Carlos Lopes teve como principais adversários ao longo da carreira: Lass Víren (Finlândia), Tony Simmons e Stephen Jones (Grã-Bretanha), Alberto Salazar (EUA) e Bekele Debele (Etiópia).

         Até 1972 a Finlândia foi o país com mais medalhas nos 10000 metros com 11. A Grã-Bretanha até 1985 foi o país com melhores resultados colectivos nos mundiais de Corta-Mato. A Etiópia venceu colectivamente de 1981 a 1985. De 1970 até 1985 apenas 2 Maratonistas por 4 vezes fizeram top4 no final do ano (anos sem JO) e/ou medalhas nos Jogos Olímpicos, ambos eram americanos.

         Carlos Lopes lutou contra adversários que tinham superestruturas de apoio aos atletas na época.

         O finlandês Lass Víren bicampeão olímpico nos 5000 e 10000 em 1972 e 1976 ganhou uma bolsa de estudos na Brigham Young Universidade dos EUA. Em 1972 e 1976 fez estágio e altitude no Quénia e em 1976 também na Colômbia.

         Carlos Lopes focou o seu trabalho para os Jogos Olímpicos em 1984 sobretudo no Monsanto. Estava convencido de que era possível ser campeão olímpico treinando sobretudo em Portugal. Os treinos no cross deram-lhe o título mundial. E foi essa preparação fundamental para o título olímpico em Los Angeles.

         Os principais adversários de Fernando Pimenta ao longo da carreira têm sido atletas alemães, o húngaro Balint Kopasz e o checo Josef Dostal.

         Hungria e Alemanha são os países com mais medalhas olímpicas na Canoagem de velocidade.

         A Alemanha nas últimas 6 grandes competições apresentou 5 canoístas diferentes. E 4 deles fizeram top4 em Mundiais/JO ao longo da carreira. Com um elevado número de praticantes e com uma das melhores escolas de canoagem do mundo a Alemanha cria condições de competitividade absolutamente ímpares a nível mundial.

         A Canoagem é um dos principais desportos na Hungria. O actual grande rival de Fernando Pimenta, Balint Kopasz é um autêntico rei no país pelo protagonismo que têm no espaço mediático.

         Josef Dostal desde 2016 ainda só participou num europeu. Na República Checa quase todos os canoístas quando finalizam a sua carreira integram as forças policiais do país. Existe um claro planeamento estratégico do treino e da carreira dos atletas. Fernando Pimenta após os Mundiais pediu as mesmas condições que os adversários.

        Todos os seus principais adversários têm mais disponibilidade de recorrer a serviços de recuperação de massagens e fisioterapia porque as federações têm mais profissionais direcionados mais especificamente para os atletas de elite, algo que em Portugal, sem um maior apoio estatal não é possível. O canoísta limiano não têm em quantidade a qualidade de competitividade interna dos seus adversários.

       Ambos nunca viraram a cara à luta e apesar de condições desfavoráveis conseguiram atingir o topo da glória mundial.

         Ambos mereceram o respeito eterno dos adversários. Lass Víren diz que Carlos Lopes foi o melhor adversário que defrontou e Balint Kopasz diz que Fernando Pimenta é o melhor competidor que poderia ter.

Características

         Carlos Lopes gostava sempre que possível de assumir a frente da corrida impondo um ritmo fortíssimo. No recorde do mundo de Fernando Mamede a 2 de Julho de 1984 foi o viseense a impor o ritmo.

         O principal exemplo ilustrativo foi a forma como venceu a Maratona nos Jogos Olímpicos em 1984, conseguindo a 4ª maior vantagem perante o 2º classificado de 1976 até hoje e obtendo o recorde olímpico que só foi quebrado em 2008.

         Nos Mundiais de Corta-Mato apenas 3 atletas (Ngugi,Tadesse, Bekele), todos africanos, conseguiram vencer por maior margem o 2º classificado.

         Fernando Pimenta impõe um ritmo na frente na regata quase ímpar na Canoagem Masculina. No século XXI só pode mesmo ser comparando ao canadiano Adam van Koeverden pela forma destemida como assume a frente da competição independente da resposta dos adversários. Esta forma de pagaiar faz dele o campeão europeu com maior vantagem para o adversário desde 1959 e o 4º de sempre. Esta estratégia de esticar o ritmo permitiu-lhe derrotar o campeão olímpico Balint Kopasz, uma das maiores promessas de sempre da canoagem mundial, ambos os pais foram canoístas e venceu os Jogos Olímpicos com a maior margem desde 1956.

(Parte III em breve)



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