A partilha da medalha de Ouro no Salto em Altura entre o italiano Gianmarco Tamberi e o catari Mutaz Essa Barshim foi considerado quase unanimemente como um dos momentos de Tóquio2020.
A marca de 2.37 por si só está longe de ter sido uma das melhores performances desportivas destes Jogos Olímpicos.
O factor relevante para que este
concurso se tenha eternizado na história olímpica foi o facto de a partilha da
glória olímpica ter acontecido por decisão dos próprios atletas sendo por isso
considerado revelador de um grande espírito olímpico.
Ambos os atletas
infelizmente passaram por lesões graves ao longo da carreira e têm-se apoiado
mutuamente nesses momentos difíceis. Contudo foi necessário ter existido esta
vontade de partilhar o mais alto lugar do pódio para que o mundo ficasse a
conhecer a sua amizade.
Valorizar a amizade
entre estes dois atletas é fantástico, pensar que o valor olímpico de amizade
foi neste caso efectivado por esta atitude é um grande erro que estamos a
cometer.
Em primeiro lugar
quando se fala em desportivismo fala-se sobretudo numa atitude humanitária em
prol do outro sem ter proveito próprio pela mesma. Como no caso do canoísta
português Sérgio Maciel, que foi entrevistado
na página do facebook do Desporto Total e deixou Marco Apura
passar-lhe sobre a meta no Mundial de Maratonas C1 Júnior porque este se tinha
enganado no trajecto. O atleta em causa abdicou de ser campeão mundial em nome
da verdade desportiva. Outros casos de atletas a falharem deliberadamente penaltys
da sua equipa que foram marcados incorretamente ou situações em que não se
aproveita de uma lesão alheia para tirar dividendo próprio.
A situação vivida no
Salto em Altura é completamente diferente de tudo isto. Mutaz Essa Barshim ao
sagrar-se campeão olímpico tornou-se o segundo atleta na história do Qatar a
chegar ao lugar mais alto do pódio nuns Jogos Olímpicos e o primeiro de
ascendência catari a fazê-lo. O fabuloso saltador do Qatar há muito tempo que é
presença assídua na academia Aspire no seu país e uma fonte de inspiração para
todos os sectores do desporto, trabalhando em projectos multidesportivos e
colaborando com o futebol.
O valor monetário que
o país dá aos atletas que ganham medalhas não foi divulgado. Em 2015 cada
jogador de Andebol recebeu 90 mil euros por cada vitória no Mundial. Um título
de vice-campeão olímpico poderia diminuir a influência do atleta no seu país
face ao halterofilista Fares Ibrahim que seria o único campeão olímpico da
história do país. Chegar ao todo do olimpo permite-lhe cimentar a sua posição
prestigiante no país e com certeza melhorar a sua condição financeira.
Gianmarco Tamberi passou as fasquias com
maior dificuldade que o seu rival, na qualificação foi pior, a probabilidade de
ganhar a final seria reduzida. Ao aceitar a proposta do seu amigo garantiu 180
mil euros de prémio, caso tivesse ficado em 2º lugar teria recebido 90 mil
euros. A valorização da sua imagem enquanto campeão olímpico permite concluir
que com esta atitude ele ganhou mais de 100 mil euros.
Pierre de Coubertin
disse “O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas sim participar,
assim como o mais importante na vida não é o triunfo, é a luta. O essencial não
é ter vencido, mas sim ter lutado bem.”
Portanto
resumidamente, em nome da amizade ganharam a glória olímpica, mais de 100 mil
euros em prémios e não perderam a nenhum nível absolutamente nada porque se
recusaram a terminar a sua luta.
Aquilo que distingue o desporto de
outras áreas é a sua capacidade objectiva de superação de barreiras e de
visualização efectiva de resultados. Uma competição desportiva existe no fundo
para através da luta honesta dos intervenientes chegarmos a um vencedor.
Por este motivo
existem os penaltys no futebol e encontros no Ténis que podem ultrapassar as 6
horas de duração.
A vitória não sendo o
mais importante, está na essência do desporto. É ela que distingue a excelência
(outro valor olímpico) do muito bom, a superação total da magnífica superação.
Imaginamos a final do
Euro2020 chegar aos Penaltys e Inglaterra e Itália decidirem que os 2 ganham o
Europeu e abdicam de disputar os penaltys?
O que o olimpismo nos
quer ensinar é que devemos saber ganhar e saber perder. Respeitarmo-nos
independentemente do resultado desportivo.
Estes valores olimpismos foram
efectivados pelos croatas Nikola Mektic/Mate Pavic (Ouro) e Cilic/Dodig (Prata)
ao pousarem na cerimónia de entrega de medalhas dos pares masculinos no Ténis
simultaneamente junto ao 2º lugar do pódio.
Esta imagem
praticamente ignorada em todo o mundo pretende transmitir que nenhum par é
superior ao outro pelo resultado desportivo. Ambos representaram a Croácia
dignamente e respeitam-se apesar da diferença desportiva.
Imaginemos que os dois pares se recusavam a jogar o super tie-break, seria correcto dar 2 medalhas de Ouro à Croácia?Porque motivo alguns desportos podem ter dois campeões e outros apenas um?
O facto de serem os
atletas a tomarem esta decisão torna este desfecho ainda mais injusto. Se não
se alterarem as regras já sabemos que se tal situação ocorrer com indivíduos do
mesmo país, vão-se recusar a lutar para dar 2 ouros ao país. Outros atletas podem
combinar entre eles falhar propositadamente que ganharam os dois. Um atleta
pode aliciar financeiramente o outro para falhar porque ganharam também os
dois.
Existe tudo a ganhar e nada a perder. E
sem incerteza não existe luta e sem luta os verdadeiros valores olímpicos não
estão a ser efectivados. Não confundamos a competição desportiva com o
pós-competição.


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