domingo, 12 de setembro de 2021

Amizade Olímpica

 




A partilha da medalha de Ouro no Salto em Altura entre o italiano Gianmarco Tamberi e o catari Mutaz Essa Barshim foi considerado quase unanimemente como um dos momentos de Tóquio2020.

A marca de 2.37 por si só está longe de ter sido uma das melhores performances desportivas destes Jogos Olímpicos.

        O factor relevante para que este concurso se tenha eternizado na história olímpica foi o facto de a partilha da glória olímpica ter acontecido por decisão dos próprios atletas sendo por isso considerado revelador de um grande espírito olímpico.

Ambos os atletas infelizmente passaram por lesões graves ao longo da carreira e têm-se apoiado mutuamente nesses momentos difíceis. Contudo foi necessário ter existido esta vontade de partilhar o mais alto lugar do pódio para que o mundo ficasse a conhecer a sua amizade.

Valorizar a amizade entre estes dois atletas é fantástico, pensar que o valor olímpico de amizade foi neste caso efectivado por esta atitude é um grande erro que estamos a cometer.

Em primeiro lugar quando se fala em desportivismo fala-se sobretudo numa atitude humanitária em prol do outro sem ter proveito próprio pela mesma. Como no caso do canoísta português Sérgio Maciel, que foi entrevistado na página do facebook do Desporto Total e deixou Marco Apura passar-lhe sobre a meta no Mundial de Maratonas C1 Júnior porque este se tinha enganado no trajecto. O atleta em causa abdicou de ser campeão mundial em nome da verdade desportiva. Outros casos de atletas a falharem deliberadamente penaltys da sua equipa que foram marcados incorretamente ou situações em que não se aproveita de uma lesão alheia para tirar dividendo próprio.

A situação vivida no Salto em Altura é completamente diferente de tudo isto. Mutaz Essa Barshim ao sagrar-se campeão olímpico tornou-se o segundo atleta na história do Qatar a chegar ao lugar mais alto do pódio nuns Jogos Olímpicos e o primeiro de ascendência catari a fazê-lo. O fabuloso saltador do Qatar há muito tempo que é presença assídua na academia Aspire no seu país e uma fonte de inspiração para todos os sectores do desporto, trabalhando em projectos multidesportivos e colaborando com o futebol.

O valor monetário que o país dá aos atletas que ganham medalhas não foi divulgado. Em 2015 cada jogador de Andebol recebeu 90 mil euros por cada vitória no Mundial. Um título de vice-campeão olímpico poderia diminuir a influência do atleta no seu país face ao halterofilista Fares Ibrahim que seria o único campeão olímpico da história do país. Chegar ao todo do olimpo permite-lhe cimentar a sua posição prestigiante no país e com certeza melhorar a sua condição financeira.

        Gianmarco Tamberi passou as fasquias com maior dificuldade que o seu rival, na qualificação foi pior, a probabilidade de ganhar a final seria reduzida. Ao aceitar a proposta do seu amigo garantiu 180 mil euros de prémio, caso tivesse ficado em 2º lugar teria recebido 90 mil euros. A valorização da sua imagem enquanto campeão olímpico permite concluir que com esta atitude ele ganhou mais de 100 mil euros.

Pierre de Coubertin disse “O mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas sim participar, assim como o mais importante na vida não é o triunfo, é a luta. O essencial não é ter vencido, mas sim ter lutado bem.”

Portanto resumidamente, em nome da amizade ganharam a glória olímpica, mais de 100 mil euros em prémios e não perderam a nenhum nível absolutamente nada porque se recusaram a terminar a sua luta.

    Aquilo que distingue o desporto de outras áreas é a sua capacidade objectiva de superação de barreiras e de visualização efectiva de resultados. Uma competição desportiva existe no fundo para através da luta honesta dos intervenientes chegarmos a um vencedor.

Por este motivo existem os penaltys no futebol e encontros no Ténis que podem ultrapassar as 6 horas de duração.

A vitória não sendo o mais importante, está na essência do desporto. É ela que distingue a excelência (outro valor olímpico) do muito bom, a superação total da magnífica superação.

Imaginamos a final do Euro2020 chegar aos Penaltys e Inglaterra e Itália decidirem que os 2 ganham o Europeu e abdicam de disputar os penaltys?

O que o olimpismo nos quer ensinar é que devemos saber ganhar e saber perder. Respeitarmo-nos independentemente do resultado desportivo.

    Estes valores olimpismos foram efectivados pelos croatas Nikola Mektic/Mate Pavic (Ouro) e Cilic/Dodig (Prata) ao pousarem na cerimónia de entrega de medalhas dos pares masculinos no Ténis simultaneamente junto ao 2º lugar do pódio.

Esta imagem praticamente ignorada em todo o mundo pretende transmitir que nenhum par é superior ao outro pelo resultado desportivo. Ambos representaram a Croácia dignamente e respeitam-se apesar da diferença desportiva.

Imaginemos que os dois pares se recusavam a jogar o super tie-break, seria correcto dar 2 medalhas de Ouro à Croácia?Porque motivo alguns desportos podem ter dois campeões e outros apenas um?

O facto de serem os atletas a tomarem esta decisão torna este desfecho ainda mais injusto. Se não se alterarem as regras já sabemos que se tal situação ocorrer com indivíduos do mesmo país, vão-se recusar a lutar para dar 2 ouros ao país. Outros atletas podem combinar entre eles falhar propositadamente que ganharam os dois. Um atleta pode aliciar financeiramente o outro para falhar porque ganharam também os dois.

        Existe tudo a ganhar e nada a perder. E sem incerteza não existe luta e sem luta os verdadeiros valores olímpicos não estão a ser efectivados. Não confundamos a competição desportiva com o pós-competição.

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