Os anos 80 marcaram uma
grande mudança no Andebol. A vitória da Alemanha Ocidental no Mundial de 1978
mostrou que o paradigma estava a mudar. A velocidade de circulação de bola era
cada vez maior, os pivots passaram a ser utilizados cada vez mais como rematadores
e os ponta cada vez mais davam largura de jogo ou soluções de 1ª linha. Os
tempos de entradas a 2º e 3º Pivot, de tremendos bloqueios estavam a diminuir.
Os remates em suspensão, ligeiro aumento das penetrações e a eficácia de saídas
dos guarda-redes aos 6 metros eram outras tendências. A melhor equipa que
replicou este início de mudanças foi sem dúvida o Metaloplastika, da
Juguslávia.
O conjunto balcânico pertence à cidade de Sabac, hoje
Sérvia, que nos anos 80 tinha apenas 60 mil habitantes. Com a grandíssima
importância do Andebol no desporto da ex-juguslávia, o Metaloplastika foi sem
dúvida nenhuma um dos maiores exemplos da história da paixão desportiva
balcânica, com um ambiente infernal nas bancadas, a mobilização de uma cidade
inteira, um estilo de jogo inovador o Metapolastika marcou uma era no Andebol
Mundial e no desporto juguslavo. Analisaremos agora o seu percurso europeu de
1983 a 1989.
Na sua temporada de estreia na Taça dos Campeões Europeus a
formação balcânica atingiu as meias-finais. Mirko Basic na baliza foi um
extraordinário guarda-redes, com uma fantástica leitura aos 6 metros, foi
preponderante no sucesso internacional do Metaloplastika e da seleção juguslava
sendo indubitavelmente um dos maiores de sempre do Andebol Mundial. Thierry
Omeyer assumiu que Basic foi a sua maior influência.
A equipa caracterizava-se por uma grande intensidade de
circulação de bola para a época, que contribuía para o sucesso dos remates de 9
metros dos laterais. Kuzmanovski, lateral direito, mais em movimentos curtos no
início de carreira e grandes cruzamentos depois e embalado pelos passes dos
colegas, Vujovic, lateral esquerdo ao contrário, no início mais em grandes
deslocações com a bola, muitos golos na posição de lateral direito, depois cada
vez menos móvel. Milosevic era o central que organizava todos estes movimentos
e era fortíssimo no passe vertical rápido para o pivot Vukovic que tinha uma
velocidade de recepção e remate absolutamente fantástica. Algo típico da escola
juguslava, nesse mesmo ano em 1982/1983 o Barcelona contratou Fejzula, outro
pivot juguslavo. Rasic como lateral direito e Colic na ponta direita eram muito
fortes na condução de jogo atacante, estando sempre ao serviço da equipa.
Isakovic com a sua mítica troca de pés, foi dos pontas-esquerdas de sempre.
Tinham uma defesa muito adiantada, que foi peça chave para
eliminar o Steaua de Bucareste de Stinga e Dumitru dois poderosos laterais
rematadores como diziam as regras da escola romena.
Em 1984 a turma de Sabac só perdeu na final perante o Dukla
de Praga. Vujovic estava cada vez mais a rematar em suspensão, com saltos
incríveis, que o permitiu ser caracterizado na altura como um jogador
futurista, o primeiro jogador do Andebol Moderno. Isakovic estava cada vez mais
completo e rematava também na 1ª linha e Mkronja era uma importante adição na
ponta direita, com os seus inteligentes movimentos interiores dava mais
soluções de ataque. Zlatko Portner estava a começar a emergir enquanto central,
mas ainda longe do patamar que atingiu anos mais tarde. As dificuldades na
transição defensiva, as constantes trocas rápidas de pontas e centrais a
juntarem na posição de Pivot para bloquearem e deixarem outro jogador livre ou
ganharem 7 metros por parte do Dukla de Praga impediram a conquista do ceptro
europeu.
Em 1984/1985 juntou-se à equipa, Cvetkovic, lateral direito,
que com o seu extraordinário trabalho de pulso, segundo alguns jornalistas da
actualidade ainda têm o remate mais bonito da história do Andebol.
Nesta época o Metaloplastika apresentou uma muito maior
panóplia de soluções atacantes, que lhe permitiram ser campeão europeu pela
primeira vez na sua história.
Portner era cada vez mais um jogador versátil, desmarcava-se
mais para as laterais, para combinar com Isakovic que fazia movimentos
interiores para rematar ou assistir o Pivot, ou para em trocas com Vujovic
aproveitar a utópica suspensão do mago montenegrino no corredor central.
Iskaovic e Mkronja continuavam fulminantes no 1x1 atacante
mas também cada vez mais eficazes no contra-ataque. Na 1ª mão da final contra o
Atlético de Madrid sofreram apenas 10 golos sem ser de Contra-ataque. Uma
inédita defesa 3x3 marcando impiedosamente Cecílio Alonso e Stroem tirou toda a
fluência do jogo rojiblanco e ainda conseguiu anular o passe para o pivot.
Na 2ª mão Portner foi sensacional na defesa e travou todo o
ímpeto do conjunto madrileno. Vujovic marcou de todas as posições na 1ª linha e
Kuzmanovski aproveitava a largura do ataque para fazer penetrações. Mesmo com a
expulsão de Vujovic, claramente o melhor jogador do mundo, a superioridade foi
evidente não oferecendo qualquer dúvida sobre o desfecho desta eliminatória.
Em 1985/1986 contra o Magdeburgo o conjunto balcânico fez
mais de 10 roubos de bola. Na final contra os polacos do Gdansk, Portner
assumia-se cada vez mais como rematador, com um sensacional remate de anca
quando o adversário lhe saía em cima, ou após cruzamentos sem bola do lado
esquerdo o que permitiu arranjar soluções para a marcação ceradíssima a
Vujovic. Que conseguiu por vezes sair da marcação e marcar e esteve muito bem
em colaborar para as situações de 1x1 de Iskaovic. Permitindo praticamente aos
adversários apenas rematar nas laterais, diminuindo a influência do grandíssimo
Bogdan Wenta e com uma velocidade de movimento e posse claramente superiores ao
adversário o Metaloplastika sagrava-se bicampeão europeu.
Na época seguinte o Gdansk, vingou-se e eliminou o
Metaloplastika nas meias-finais, infelizmente não consegui encontrar o jogo.
Nessa época vi apenas 1 jogo com o Barcelona e Empor e não houve grandes
alterações na dinâmica da equipa.
Em 1987/1988 Portner contra o Dukla de Praga assumiu-se como
o grande marcador da equipa. Os Contra-ataques fruto duma defesa agressiva 5x1
e as 0 penetrações concedidas ao adversário foram as premissas para ser a
primeira equipa da história a chegar às Meias-Finais da TCE durante 6 épocas
consecutivas.
O CSKA como uma defesa agressiva 6x0, anulou Isakovic, todo
o jogo de 2ª linha e deixou a equipa ficar muito dependente de Portner e
Vujovic. Desta vez a defesa 3x3 não resultou, cederem espaço nas costas
inteligentemente aproveitado pela formação soviética.
A época 1988/1989 foi o início do fim do grande
Metaloplastika. Veselin Vujovic é contratado pelo Barcelona e a formação
juguslava nunca mais consegue na sua história regressar às MF da Taça da
Europa.
Nesta época foram eliminados pelo SKA Minsk, na minha
opinião, a equipa mais empolgante da história do Andebol. Com uma defesa
cerradíssima o conjunto da capital da (hoje) Bielorúsisa tirou todo o arsenal
de jogo colectivo da formação balcânica. Repetem-se os erros da eliminatória no
ano anterior com o CSKA, não conseguiram ter fluência de jogo, tinham jogadores
demasiado próximos. As tradicionais recuperações de bola apenas estavam nos
livros de história, cederam inúmeros contra-ataques e foram amplamente
dominados pelo dinamismo e criatividade bielorussa. Estava escrito, até hoje, o
último capítulo do Metalopastika na principal prova de clubes do mundo.
Apesar desta despedida inglória o legado do mítico
Metaloplastika jamais pode ser esquecido.
Para a história fica a paixão de um povo de uma cidade
inteira que saia para as ruas e só via Andebol por todo o lado, dum calor
humano infernal que transportava a equipa para exibições à frente do seu tempo.
A verdadeira paixão pura do desporto da ex-Juguslávia estava toda ali. Os
jogadores sentiam essa energia e entregavam-se a cada jogo como se fosse o
último das suas vidas. Nas saídas aos 6 metros de Basic, nos remates em suspensão
de Vujovic, na liderança de Portner, no trabalho de pés de Isakovic, na
velocidade de recepção e remate de Vukovic, nos movimentos interiores de
Mkronja e numa inédita defesa subida escreveram-se os princípios daquela que
foi a primeira grande equipa do Andebol Moderno. O seu legado jamais poderá
cair no esquecimento. O que é hoje o Andebol, deve-o muito a esta fenomenal
equipa.

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