quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Metaloplastika: A primeira grande equipa do Andebol Moderno



    Os anos 80 marcaram uma grande mudança no Andebol. A vitória da Alemanha Ocidental no Mundial de 1978 mostrou que o paradigma estava a mudar. A velocidade de circulação de bola era cada vez maior, os pivots passaram a ser utilizados cada vez mais como rematadores e os ponta cada vez mais davam largura de jogo ou soluções de 1ª linha. Os tempos de entradas a 2º e 3º Pivot, de tremendos bloqueios estavam a diminuir. Os remates em suspensão, ligeiro aumento das penetrações e a eficácia de saídas dos guarda-redes aos 6 metros eram outras tendências. A melhor equipa que replicou este início de mudanças foi sem dúvida o Metaloplastika, da Juguslávia.

         O conjunto balcânico pertence à cidade de Sabac, hoje Sérvia, que nos anos 80 tinha apenas 60 mil habitantes. Com a grandíssima importância do Andebol no desporto da ex-juguslávia, o Metaloplastika foi sem dúvida nenhuma um dos maiores exemplos da história da paixão desportiva balcânica, com um ambiente infernal nas bancadas, a mobilização de uma cidade inteira, um estilo de jogo inovador o Metapolastika marcou uma era no Andebol Mundial e no desporto juguslavo. Analisaremos agora o seu percurso europeu de 1983 a 1989.

         Na sua temporada de estreia na Taça dos Campeões Europeus a formação balcânica atingiu as meias-finais. Mirko Basic na baliza foi um extraordinário guarda-redes, com uma fantástica leitura aos 6 metros, foi preponderante no sucesso internacional do Metaloplastika e da seleção juguslava sendo indubitavelmente um dos maiores de sempre do Andebol Mundial. Thierry Omeyer assumiu que Basic foi a sua maior influência.

         A equipa caracterizava-se por uma grande intensidade de circulação de bola para a época, que contribuía para o sucesso dos remates de 9 metros dos laterais. Kuzmanovski, lateral direito, mais em movimentos curtos no início de carreira e grandes cruzamentos depois e embalado pelos passes dos colegas, Vujovic, lateral esquerdo ao contrário, no início mais em grandes deslocações com a bola, muitos golos na posição de lateral direito, depois cada vez menos móvel. Milosevic era o central que organizava todos estes movimentos e era fortíssimo no passe vertical rápido para o pivot Vukovic que tinha uma velocidade de recepção e remate absolutamente fantástica. Algo típico da escola juguslava, nesse mesmo ano em 1982/1983 o Barcelona contratou Fejzula, outro pivot juguslavo. Rasic como lateral direito e Colic na ponta direita eram muito fortes na condução de jogo atacante, estando sempre ao serviço da equipa. Isakovic com a sua mítica troca de pés, foi dos pontas-esquerdas de sempre.

         Tinham uma defesa muito adiantada, que foi peça chave para eliminar o Steaua de Bucareste de Stinga e Dumitru dois poderosos laterais rematadores como diziam as regras da escola romena.

         Em 1984 a turma de Sabac só perdeu na final perante o Dukla de Praga. Vujovic estava cada vez mais a rematar em suspensão, com saltos incríveis, que o permitiu ser caracterizado na altura como um jogador futurista, o primeiro jogador do Andebol Moderno. Isakovic estava cada vez mais completo e rematava também na 1ª linha e Mkronja era uma importante adição na ponta direita, com os seus inteligentes movimentos interiores dava mais soluções de ataque. Zlatko Portner estava a começar a emergir enquanto central, mas ainda longe do patamar que atingiu anos mais tarde. As dificuldades na transição defensiva, as constantes trocas rápidas de pontas e centrais a juntarem na posição de Pivot para bloquearem e deixarem outro jogador livre ou ganharem 7 metros por parte do Dukla de Praga impediram a conquista do ceptro europeu.

         Em 1984/1985 juntou-se à equipa, Cvetkovic, lateral direito, que com o seu extraordinário trabalho de pulso, segundo alguns jornalistas da actualidade ainda têm o remate mais bonito da história do Andebol.

         Nesta época o Metaloplastika apresentou uma muito maior panóplia de soluções atacantes, que lhe permitiram ser campeão europeu pela primeira vez na sua história.

         Portner era cada vez mais um jogador versátil, desmarcava-se mais para as laterais, para combinar com Isakovic que fazia movimentos interiores para rematar ou assistir o Pivot, ou para em trocas com Vujovic aproveitar a utópica suspensão do mago montenegrino no corredor central.

         Iskaovic e Mkronja continuavam fulminantes no 1x1 atacante mas também cada vez mais eficazes no contra-ataque. Na 1ª mão da final contra o Atlético de Madrid sofreram apenas 10 golos sem ser de Contra-ataque. Uma inédita defesa 3x3 marcando impiedosamente Cecílio Alonso e Stroem tirou toda a fluência do jogo rojiblanco e ainda conseguiu anular o passe para o pivot.

         Na 2ª mão Portner foi sensacional na defesa e travou todo o ímpeto do conjunto madrileno. Vujovic marcou de todas as posições na 1ª linha e Kuzmanovski aproveitava a largura do ataque para fazer penetrações. Mesmo com a expulsão de Vujovic, claramente o melhor jogador do mundo, a superioridade foi evidente não oferecendo qualquer dúvida sobre o desfecho desta eliminatória.

         Em 1985/1986 contra o Magdeburgo o conjunto balcânico fez mais de 10 roubos de bola. Na final contra os polacos do Gdansk, Portner assumia-se cada vez mais como rematador, com um sensacional remate de anca quando o adversário lhe saía em cima, ou após cruzamentos sem bola do lado esquerdo o que permitiu arranjar soluções para a marcação ceradíssima a Vujovic. Que conseguiu por vezes sair da marcação e marcar e esteve muito bem em colaborar para as situações de 1x1 de Iskaovic. Permitindo praticamente aos adversários apenas rematar nas laterais, diminuindo a influência do grandíssimo Bogdan Wenta e com uma velocidade de movimento e posse claramente superiores ao adversário o Metaloplastika sagrava-se bicampeão europeu.

         Na época seguinte o Gdansk, vingou-se e eliminou o Metaloplastika nas meias-finais, infelizmente não consegui encontrar o jogo. Nessa época vi apenas 1 jogo com o Barcelona e Empor e não houve grandes alterações na dinâmica da equipa.

         Em 1987/1988 Portner contra o Dukla de Praga assumiu-se como o grande marcador da equipa. Os Contra-ataques fruto duma defesa agressiva 5x1 e as 0 penetrações concedidas ao adversário foram as premissas para ser a primeira equipa da história a chegar às Meias-Finais da TCE durante 6 épocas consecutivas.

         O CSKA como uma defesa agressiva 6x0, anulou Isakovic, todo o jogo de 2ª linha e deixou a equipa ficar muito dependente de Portner e Vujovic. Desta vez a defesa 3x3 não resultou, cederem espaço nas costas inteligentemente aproveitado pela formação soviética.

         A época 1988/1989 foi o início do fim do grande Metaloplastika. Veselin Vujovic é contratado pelo Barcelona e a formação juguslava nunca mais consegue na sua história regressar às MF da Taça da Europa.

         Nesta época foram eliminados pelo SKA Minsk, na minha opinião, a equipa mais empolgante da história do Andebol. Com uma defesa cerradíssima o conjunto da capital da (hoje) Bielorúsisa tirou todo o arsenal de jogo colectivo da formação balcânica. Repetem-se os erros da eliminatória no ano anterior com o CSKA, não conseguiram ter fluência de jogo, tinham jogadores demasiado próximos. As tradicionais recuperações de bola apenas estavam nos livros de história, cederam inúmeros contra-ataques e foram amplamente dominados pelo dinamismo e criatividade bielorussa. Estava escrito, até hoje, o último capítulo do Metalopastika na principal prova de clubes do mundo.

         Apesar desta despedida inglória o legado do mítico Metaloplastika jamais pode ser esquecido.

         Para a história fica a paixão de um povo de uma cidade inteira que saia para as ruas e só via Andebol por todo o lado, dum calor humano infernal que transportava a equipa para exibições à frente do seu tempo. A verdadeira paixão pura do desporto da ex-Juguslávia estava toda ali. Os jogadores sentiam essa energia e entregavam-se a cada jogo como se fosse o último das suas vidas. Nas saídas aos 6 metros de Basic, nos remates em suspensão de Vujovic, na liderança de Portner, no trabalho de pés de Isakovic, na velocidade de recepção e remate de Vukovic, nos movimentos interiores de Mkronja e numa inédita defesa subida escreveram-se os princípios daquela que foi a primeira grande equipa do Andebol Moderno. O seu legado jamais poderá cair no esquecimento. O que é hoje o Andebol, deve-o muito a esta fenomenal equipa.

 


 

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