O ABC em 1994 foi vice-campeão europeu de Andebol. Mas será que o Andebol Nacional em particular e o país no geral, conseguiram entender a dimensão do feito da equipa bracarense? Parece-me que não. Normalmente quando se recorda a campanha europeia do ABC na Liga dos Campeões de 1993/1994 fala-se em: feito inacreditável, grande proeza, orgulho da cidade de Braga, mas raramente se dimensiona à sua verdadeira escala o resultado alcançado.
O Andebol português até
1993 nunca tinha participado em nenhuma fase final de um Mundial ou Jogos
Olímpicos. A única vez que uma equipa portuguesa tinha chegado a uma meia-final
europeia foi o Sporting em 1970/1971 na Taça da Europa, mas num contexto de 2
eliminatórias ganhas por falta de comparência dos adversários. Só o FC Porto em
1959/1960 (antes do Andebol ser modalidade olímpica de forma efetiva) e o ABC
no ano anterior tinham chegado aos Quartos de Final da TCE.
O 2º lugar na Liga dos
campeões da turma minhota só pode ter paralelo com o St. Omar St. Gallen da Suíça
vice-campeão europeu em 1982 e com a Coreia do Sul vice-campeã olímpica em
1988.
Contudo convém não esquecer que a Suíça participou nos
JO de 1980. A Coreia do Sul já tinha um projeto de Andebol, pelo sucesso do
Andebol feminino, tiveram 4 anos a preparar os jogos, menos desgaste físico na
preparação, jogaram em casa e os outros tiveram que se adaptar à humidade, não
havia Meias-Finais e por isso foram à Final sem precisar de jogar com Suécia e
Jugoslávia.
Nem vale
a pena falar do Qatar em 2015, porque todos sabemos que esse vice-campeonato
mundial ocorreu devido às naturalizações.
O ABC
ficou a 2 golos de ser campeão europeu sem nenhum precedente de qualidade
histórico da modalidade em Portugal, algo nunca visto em toda a história do
Andebol em países com semelhante ausência de resultados.
O
treinador Alessander Donner teve um papel preponderante na obtenção deste
resultado. Hoje, quando se recorda o treinador ucraniano fala-se num homem
rígido no processo de treino e de uma ambição ilimitada. Convém não esquecer,
que em 1990 Donner foi campeão soviético pelo Dínamo de Astrakhan batendo o SKA
Minsk, considerada por muitos especialistas a equipa mais empolgante de sempre.
Havia racionalidade na sua dose de loucura.
Com
o objectivo de analisar a dimensão do feito do ABC é obrigatório comparar o
nível de qualidade da Liga dos Campeões de 1993/1994 com a actual.
Apesar
de na altura existirem menos adversários de extraordinária valia, convém não
esquecer que o ABC eliminou o Nimes de França que tinha nas suas fileiras 4
estrelas da seleção gaulesa, o guarda-redes Dellautre, o lateral direito Stoecklin,
o lateral-esquerdo Lathoud e o pivot Kervadec e 2 estrelas da seleção croata o
lateral direito Saracevic e ponta-direita Smajlagić. Portanto 6 jogadores que
no ano seguinte estavam só a jogar a final do campeonato do mundo. Do grupo do
ABC fazia parte ainda o Zagreb, ao qual pertenciam o lateral-esquerdo Puc,
Zlavko Golusa, Gudelj, o pivot Kljaic e ponta-esquerda Patrick Cavar que mais
tarde jogou como central.
Se
olharmos para a presente temporada Nantes e Aalborg são conjuntos com menor qualidade
individual que estes oponentes. E mesmo o PSG na actualidade duvido que tenha
mais qualidade que o Nimes de 1994. Prandi, Steins, Nahi são excelentes
jogadores mas longe de terem já uma posição efectiva no panorama do Andebol
Mundial.
O ABC não tinha
capacidade financeira para entrar em loucuras de contratações de jogadores
estrangeiros com salários elevados. E por isso não podia contar, por exemplo
com nenhum dos laterais que estavam no início da década a brilhar nas
principais competições internacionais: Puc,Lathoud,Masip,Vujovic,Yakimovich,Alemany,Perunicic,Volle,Kallmn,Elles,Koudinov,Atavin,Lindgren,
Golusa,Saracevic, Stoecklin, Urdangarin,Garralda, Jonasson,Kiselev,
Kuzmanovski, Schwalb,Pogorelov, Staffan Olsson, Butulija,Zerbe, Yoon
Kyung-Shin,Jorgensen, Villaldea. Mas nem por isso deixou de fazer história. Vladimir
Bolotsky, Viktor Tchikoulaev e Konstantin Dolgov tinham a experiência de ter
jogado no campeonato soviético e tinham a fome de aparecer nos grandes palcos
internacionais, em que ainda não tinham oportunidade.
Esta incrível odisseia do
ABC foi uma viagem com muitos percalços e fugas inacreditáveis de naufrágio.
Na primeira parte da 2ª
mão dos Oitavos de Final contra o Hapoel Rishon Le Zion o ABC estava a ser
escandalosamente prejudicado pela arbitragem e o director desportivo Artur
Monteiro ameaçou que a equipa abandonasse o campo na 2ª parte se tal continuava
a acontecer. O ABC acabou por vencer a eliminatória e seguir em frente.
A Fase
de grupos começou com uma derrota 28-18 frente aos noruegueses do Sandefjord HK
e só o primeiro classificado tinha acesso à final. Antes da final fica-me na
memória a jogada mais bonita que já vi em todo o Andebol Internacional. No
empate com o Nimes em França, que foi preponderante para a final, um duplo fly
entre Álvaro Martins e Viktor Tchikoulaev que selou o resultado final. Depois
de Aleksander Donner ter sido expulso, ter ficado nas imediações do terreno de
jogo a ver os últimos momentos, sido mandado sair pela polícia e ainda ter
levado com pequenos objectos atirados pelo público francês.

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