sábado, 11 de setembro de 2021

ABC- A maior surpresa da História do Andebol (1ª Parte)



             O ABC em 1994 foi vice-campeão europeu de Andebol. Mas será que o Andebol Nacional em particular e o país no geral, conseguiram entender a dimensão do feito da equipa bracarense? Parece-me que não. Normalmente quando se recorda a campanha europeia do ABC na Liga dos Campeões de 1993/1994 fala-se em: feito inacreditável, grande proeza, orgulho da cidade de Braga, mas raramente se dimensiona à sua verdadeira escala o resultado alcançado.

O Andebol português até 1993 nunca tinha participado em nenhuma fase final de um Mundial ou Jogos Olímpicos. A única vez que uma equipa portuguesa tinha chegado a uma meia-final europeia foi o Sporting em 1970/1971 na Taça da Europa, mas num contexto de 2 eliminatórias ganhas por falta de comparência dos adversários. Só o FC Porto em 1959/1960 (antes do Andebol ser modalidade olímpica de forma efetiva) e o ABC no ano anterior tinham chegado aos Quartos de Final da TCE.

O 2º lugar na Liga dos campeões da turma minhota só pode ter paralelo com o St. Omar St. Gallen da Suíça vice-campeão europeu em 1982 e com a Coreia do Sul vice-campeã olímpica em 1988.

        Contudo convém não esquecer que a Suíça participou nos JO de 1980. A Coreia do Sul já tinha um projeto de Andebol, pelo sucesso do Andebol feminino, tiveram 4 anos a preparar os jogos, menos desgaste físico na preparação, jogaram em casa e os outros tiveram que se adaptar à humidade, não havia Meias-Finais e por isso foram à Final sem precisar de jogar com Suécia e Jugoslávia.

         Nem vale a pena falar do Qatar em 2015, porque todos sabemos que esse vice-campeonato mundial ocorreu devido às naturalizações.

         O ABC ficou a 2 golos de ser campeão europeu sem nenhum precedente de qualidade histórico da modalidade em Portugal, algo nunca visto em toda a história do Andebol em países com semelhante ausência de resultados.

         O treinador Alessander Donner teve um papel preponderante na obtenção deste resultado. Hoje, quando se recorda o treinador ucraniano fala-se num homem rígido no processo de treino e de uma ambição ilimitada. Convém não esquecer, que em 1990 Donner foi campeão soviético pelo Dínamo de Astrakhan batendo o SKA Minsk, considerada por muitos especialistas a equipa mais empolgante de sempre. Havia racionalidade na sua dose de loucura.

           Com o objectivo de analisar a dimensão do feito do ABC é obrigatório comparar o nível de qualidade da Liga dos Campeões de 1993/1994 com a actual.

         Apesar de na altura existirem menos adversários de extraordinária valia, convém não esquecer que o ABC eliminou o Nimes de França que tinha nas suas fileiras 4 estrelas da seleção gaulesa, o guarda-redes Dellautre, o lateral direito Stoecklin, o lateral-esquerdo Lathoud e o pivot Kervadec e 2 estrelas da seleção croata o lateral direito Saracevic e ponta-direita Smajlagić. Portanto 6 jogadores que no ano seguinte estavam só a jogar a final do campeonato do mundo. Do grupo do ABC fazia parte ainda o Zagreb, ao qual pertenciam o lateral-esquerdo Puc, Zlavko Golusa, Gudelj, o pivot Kljaic e ponta-esquerda Patrick Cavar que mais tarde jogou como central.

         Se olharmos para a presente temporada Nantes e Aalborg são conjuntos com menor qualidade individual que estes oponentes. E mesmo o PSG na actualidade duvido que tenha mais qualidade que o Nimes de 1994. Prandi, Steins, Nahi são excelentes jogadores mas longe de terem já uma posição efectiva no panorama do Andebol Mundial.

O ABC não tinha capacidade financeira para entrar em loucuras de contratações de jogadores estrangeiros com salários elevados. E por isso não podia contar, por exemplo com nenhum dos laterais que estavam no início da década a brilhar nas principais competições internacionais: Puc,Lathoud,Masip,Vujovic,Yakimovich,Alemany,Perunicic,Volle,Kallmn,Elles,Koudinov,Atavin,Lindgren, Golusa,Saracevic, Stoecklin, Urdangarin,Garralda, Jonasson,Kiselev, Kuzmanovski, Schwalb,Pogorelov, Staffan Olsson, Butulija,Zerbe, Yoon Kyung-Shin,Jorgensen, Villaldea. Mas nem por isso deixou de fazer história. Vladimir Bolotsky, Viktor Tchikoulaev e Konstantin Dolgov tinham a experiência de ter jogado no campeonato soviético e tinham a fome de aparecer nos grandes palcos internacionais, em que ainda não tinham oportunidade.

Esta incrível odisseia do ABC foi uma viagem com muitos percalços e fugas inacreditáveis de naufrágio.

Na primeira parte da 2ª mão dos Oitavos de Final contra o Hapoel Rishon Le Zion o ABC estava a ser escandalosamente prejudicado pela arbitragem e o director desportivo Artur Monteiro ameaçou que a equipa abandonasse o campo na 2ª parte se tal continuava a acontecer. O ABC acabou por vencer a eliminatória e seguir em frente.

         A Fase de grupos começou com uma derrota 28-18 frente aos noruegueses do Sandefjord HK e só o primeiro classificado tinha acesso à final. Antes da final fica-me na memória a jogada mais bonita que já vi em todo o Andebol Internacional. No empate com o Nimes em França, que foi preponderante para a final, um duplo fly entre Álvaro Martins e Viktor Tchikoulaev que selou o resultado final. Depois de Aleksander Donner ter sido expulso, ter ficado nas imediações do terreno de jogo a ver os últimos momentos, sido mandado sair pela polícia e ainda ter levado com pequenos objectos atirados pelo público francês.

         Na última jornada o ABC tinha na Croácia quer ser a terceira equipa na história, desde que o Andebol é modalidade olímpica a vencer o bicampeão europeu na sua casa, neste caso o Zagreb e ainda esperar que o Nimes perdesse na Noruega. O cenário verificou-se e o David (ABC) tinha encontro marcado na final com Golias (TEKA).

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