sábado, 11 de setembro de 2021

Magnus Andersson- O seu 7x6 começou há mais de 30 anos


        O FC Porto e a seleção portuguesa de Andebol são dos melhores intérpretes mundiais do sistema 7x6, fruto do trabalho de Magnus Andersson. Para entendermos a razão para a eficácia da interpretação dos jogadores deste modelo é crucial entender quem foi Magnus Andersson enquanto jogador. Nunca jogou em 7x6, mas tal como Klimov, Heiner Brand, Valero Rivera, Chema Rodriguéz, entre tantos outros, o maestro sueco já era um treinador quando estava em campo. A pautar o ritmo das equipas, a comandar a orquestra, a mudar a velocidade do jogo, mas sobretudo a ter uma panóplia de criação de variação de jogadas que baralhava completamente os adversários. No tempo e no espaço, Magnus Andersson foi um senhor que jogava claramente à frente do seu tempo.

         As primeiras memórias que tenho de Magnus Andersson são enquanto jogador do Drott da sua Suécia natal. No conjunto escandinavo Magnus eliminou em 1989 da TCE o poderoso Barcelona (primeira vez na carreira que ele é David e vence Golias, como tantas outras) e um ano mais tarde só sucumbiu na final da Taça das Taças perante o recém-emergente TEKA Santander.

         Com menos individualidades de grande valia do que na seleção no Drott, Magnus assumia mais o jogo. Jogava preferencialmente como lateral esquerdo, defina-se como um grande construtor de jogo procurando criar largura para os remates do lateral direito desde longe da baliza. Mas já se notava um jogador imprevisível, podia não ser muito rápido com a bola (naquele tempo o jogo era bem mais lento) mas era sobretudo rápido a pensar. Tanto fazia estes movimentos como tinha também uma muito boa articulação com o Ponta-esquerda em jogadas criadas do nada, ou um extraordinário passe ao Pivot.

         A inteligência táctica de Magnus foi evidente na final olímpica de 1992, em que após cruzamentos sem bola rematava do lado direito.

         O que muita gente desconhece é que a ascendência de Magnus Andersson acontece num contexto de quebra de rendimento de Magnus Wislander. O lendário jogador sueco, eleito melhor jogador do século XX teve entre 94-97 o seu pior período na seleção. E desde 98 começou a ser utilizado também como Pivot. O Andebol estava a mudar, com maiores oscilações de ritmo de jogo, maior imprevisibilidade e os grandes centrais mais do que rápidos na circulação, no 1x1 e no remate rápido estonteante, caracterizavam-se por terem maior criatividade na definição de jogadas e capacidade para fazer mais passes picados e também percorrer outras zonas do campo para construir para os colegas. Foi neste paradigma que se deu a grande explosão da influência de Magnus no conjunto escandinavo desde 1993, ano em que é eleito o melhor jogador do mundo.

         A final do europeu de 1994 é um autêntico manual para todos os centrais do mundo que se querem caracterizar pelas assistências. O recital que Magnus Andersson deu em campo, ficou para a história. Naquela época, era muito mais raro uma equipa ter muitas mudanças de velocidade na mesma jogada, o jogo era mais linear, tinha menos cruzamentos e bruscas inversões de circulação de bola. Mas Magnus já jogava no século XXI. Com uma extraordinária imprevisibilidade para assistir os pontas, um timing de passe excepcional para a típica explosão de bola de Lovgren de anca, ou para curtas penetrações de Wislander, o astro sueco ainda era importante quando fazia movimentos de aproximação com Steffan Olsson para este fruto da sua elevada estatura aproveitar o seu 1x1. E sem esquecer claro os seus fantásticos 2 golos em remates de anca surpresa. Quando a bola chegava às mãos de Magnus Andersson começa a imprevisibilidade.      Outro jogo que recordo é a Meia-final do Euro 1996 contra a Rússia em que muitas vezes aproveitava a ausência de marcação individual para vir às laterais em ritmo lento e quando os adversários pensavam que estava apenas a construir soltava um fulminante passe picado para as pontas. Se não lhe saiam em cima o seu poderoso remate de anca avançava, se cediam espaço para marcar os colegas que faziam bloqueios, Magnus comia o espaço e em pezinhos de lã fazia penetrações excepcionais.

         A meia-final do Mundial de 1997 em que aproveitou a subida da defesa Húngara para rasgar com passes para as pontas e fazer o 2x2 com Lovgren explicam bem a sua elevada leitura de jogo e adaptação.

         A final de 1999 contra a Rússia, apesar da expulsão de Wislander no início da 2ª parte Magnus Andersson com a sua extraordinária mudança de velocidade e interpretação dos movimentos dos colegas para 2º Pivot que permitem fazer recuar a defesa do adversário gere a orquestra sueca com uma mestria e maturidade táctica inigualável e é peça preponderante para o último título mundial do conjunto escandinavo.

         Nos últimos anos da carreira na seleção Magnus assume-se fundamental na defesa. Ia jogando menos devido à ascensão de Vranjes mas não deixava de brilhar. Os típicos remates de anca e a inteligência para manobrar os ritmos de jogo estiveram com ele até ao término da sua ilustre carreira.

Hoje vemos Magnus orientar o FC Porto com um 7x6 imprevisível, por vezes não tão rápido, mas muito forte na mudança de velocidade e imprevisibilidade. Quando Rui Silva do nada faz um passe picado para Itturiza, os remates surpresa de Miguel Martins, as assistências de costas de Fábio Magalhães.

         As jogadas são diferentes, o sistema é diferente, mas o modelo já estava lá. Tudo isto começou há 30 anos a ser posto em prática por um dos melhores criadores da história do Andebol Mundial.
 

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