O FC Porto e a seleção
portuguesa de Andebol são dos melhores intérpretes mundiais do sistema 7x6,
fruto do trabalho de Magnus Andersson. Para entendermos a razão para a eficácia
da interpretação dos jogadores deste modelo é crucial entender quem foi Magnus
Andersson enquanto jogador. Nunca jogou em 7x6, mas tal como Klimov, Heiner
Brand, Valero Rivera, Chema Rodriguéz, entre tantos outros, o maestro sueco já
era um treinador quando estava em campo. A pautar o ritmo das equipas, a
comandar a orquestra, a mudar a velocidade do jogo, mas sobretudo a ter uma
panóplia de criação de variação de jogadas que baralhava completamente os
adversários. No tempo e no espaço, Magnus Andersson foi um senhor que jogava
claramente à frente do seu tempo.
As primeiras memórias que tenho de Magnus Andersson são
enquanto jogador do Drott da sua Suécia natal. No conjunto escandinavo Magnus
eliminou em 1989 da TCE o poderoso Barcelona (primeira vez na carreira que ele
é David e vence Golias, como tantas outras) e um ano mais tarde só sucumbiu na
final da Taça das Taças perante o recém-emergente TEKA Santander.
Com menos individualidades de grande valia do que na seleção
no Drott, Magnus assumia mais o jogo. Jogava preferencialmente como lateral
esquerdo, defina-se como um grande construtor de jogo procurando criar largura
para os remates do lateral direito desde longe da baliza. Mas já se notava um
jogador imprevisível, podia não ser muito rápido com a bola (naquele tempo o
jogo era bem mais lento) mas era sobretudo rápido a pensar. Tanto fazia estes
movimentos como tinha também uma muito boa articulação com o Ponta-esquerda em
jogadas criadas do nada, ou um extraordinário passe ao Pivot.
A inteligência táctica de Magnus foi evidente na final
olímpica de 1992, em que após cruzamentos sem bola rematava do lado direito.
O que muita gente desconhece é que a ascendência de Magnus Andersson
acontece num contexto de quebra de rendimento de Magnus Wislander. O lendário
jogador sueco, eleito melhor jogador do século XX teve entre 94-97 o seu pior
período na seleção. E desde 98 começou a ser utilizado também como Pivot. O
Andebol estava a mudar, com maiores oscilações de ritmo de jogo, maior
imprevisibilidade e os grandes centrais mais do que rápidos na circulação, no
1x1 e no remate rápido estonteante, caracterizavam-se por terem maior
criatividade na definição de jogadas e capacidade para fazer mais passes
picados e também percorrer outras zonas do campo para construir para os
colegas. Foi neste paradigma que se deu a grande explosão da influência de
Magnus no conjunto escandinavo desde 1993, ano em que é eleito o melhor jogador
do mundo.
A final do europeu de 1994 é um autêntico manual para todos
os centrais do mundo que se querem caracterizar pelas assistências. O recital
que Magnus Andersson deu em campo, ficou para a história. Naquela época, era
muito mais raro uma equipa ter muitas mudanças de velocidade na mesma jogada, o
jogo era mais linear, tinha menos cruzamentos e bruscas inversões de circulação
de bola. Mas Magnus já jogava no século XXI. Com uma extraordinária
imprevisibilidade para assistir os pontas, um timing de passe excepcional para
a típica explosão de bola de Lovgren de anca, ou para curtas penetrações de
Wislander, o astro sueco ainda era importante quando fazia movimentos de
aproximação com Steffan Olsson para este fruto da sua elevada estatura
aproveitar o seu 1x1. E sem esquecer claro os seus fantásticos 2 golos em
remates de anca surpresa. Quando a bola chegava às mãos de Magnus Andersson
começa a imprevisibilidade. Outro
jogo que recordo é a Meia-final do Euro 1996 contra a Rússia em que muitas
vezes aproveitava a ausência de marcação individual para vir às laterais em
ritmo lento e quando os adversários pensavam que estava apenas a construir
soltava um fulminante passe picado para as pontas. Se não lhe saiam em cima o
seu poderoso remate de anca avançava, se cediam espaço para marcar os colegas
que faziam bloqueios, Magnus comia o espaço e em pezinhos de lã fazia
penetrações excepcionais.
A meia-final do Mundial de 1997 em que aproveitou a subida
da defesa Húngara para rasgar com passes para as pontas e fazer o 2x2 com
Lovgren explicam bem a sua elevada leitura de jogo e adaptação.
A final de 1999 contra a Rússia, apesar da expulsão de
Wislander no início da 2ª parte Magnus Andersson com a sua extraordinária
mudança de velocidade e interpretação dos movimentos dos colegas para 2º Pivot
que permitem fazer recuar a defesa do adversário gere a orquestra sueca com uma
mestria e maturidade táctica inigualável e é peça preponderante para o último
título mundial do conjunto escandinavo.
Nos últimos anos da carreira na seleção Magnus assume-se
fundamental na defesa. Ia jogando menos devido à ascensão de Vranjes mas não
deixava de brilhar. Os típicos remates de anca e a inteligência para manobrar
os ritmos de jogo estiveram com ele até ao término da sua ilustre carreira.
Hoje vemos Magnus
orientar o FC Porto com um 7x6 imprevisível, por vezes não tão rápido, mas
muito forte na mudança de velocidade e imprevisibilidade. Quando Rui Silva do
nada faz um passe picado para Itturiza, os remates surpresa de Miguel Martins,
as assistências de costas de Fábio Magalhães.
As jogadas são diferentes, o sistema é diferente, mas o
modelo já estava lá. Tudo isto começou há 30 anos a ser posto em prática por um
dos melhores criadores da história do Andebol Mundial.

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