Desde que em 1984 Portugal somou a 1ª
medalha em Jogos Paralímpicos, Tóquio2020 com 2 medalhas de bronze de Norberto
Mourão e Miguel Monteiro assume-se como o pior resultado de sempre da comitiva
nacional.
A importância crescente que os Jogos
Paralímpicos têm na sociedade global são um profundo avanço para chegarmos à
inclusão que estes desportistas merecem.
Por questões biológicas em quase todos
os desportos competem de forma diferenciada homens e mulheres. Com esta divisão
está a se dar às mulheres a justa oportunidade de competir e ambicionar o topo.
Mas a exigência, expectativas de espetáculo desportivo e motivação para ver
homens e mulheres deve ser o mais igualitário possível. Reparemos que a grande
figura dos Jogos Olímpicos de Tóquio2020 foi Simone Biles por todo o impacto
que a sua não comparência no concurso geral e por aparelhos (à excepção da
trave) causou.
O que se nota na sociedade portuguesa é
um caminho perfeitamente oposto. A sociedade civil exige ao governo e às
instituições privadas maior capacidade de financiamento e participação num
projecto desportivo olímpico para a obtenção de resultados. A sociedade define
que quer que os nossos atletas treinem e se preparem o mais possível dentro das
condições que os principais adversários têm. Mas nos Jogos Paralímpicos,
contentamo-nos apenas com participar.
Em Sidney2000 Portugal contabilizou 16
medalhas. Dentro dos países europeus da nossa população: Rep. Checa (43), Hungria
(23), Bielorússia (23), Suécia (21) e Suiça (20) conseguiram mais. Com 6
medalhas de Ouro apenas Suiça (8) e Rep. Checa (15) conseguiram mais. Áustria
(15), Grécia (11), Bélgica (9), Bulgária (1), Sérvia (1) tiveram prestações
inferiores a Portugal. Houve 183 medalhas conquistadas por todos estes países.
Em Tóquio2020 estes países de média
dimensão europeia conquistaram apenas 97 medalhas, em virtude da maior aposta
dos países mais populosos do mundo. Os resultados de medalhas foram os
seguintes:
Hungria (16), Bélgica (15), Suiça (14),
Grécia (11), Rep. Checa (8), Suécia (8), Áustria (8), Bielorússia (7), Sérvia
(6), Bulgária (2) e Portugal (2)
Portugal
é claramente o país com a maior recessão dos últimos 20 anos. Sete dos 10
países têm 4 VEZES MAIS MEDALHAS QUE NÓS! E apenas a Bulgária NÃO TÊM O TRIPLO!
Uma grande surpresa face a estes
resultados é que apenas Grécia (41) e Hungria (37) tiveram mais atletas a
participar do que Portugal.
Portanto o problema não está na falta
de atletas. As autarquias, as associações e os clubes têm possibilitado a
pessoas com deficiência em Portugal condições de praticar desporto e lutar pela
participação paralímpica.
O desporto paralímpico português viveu
ao longo da história demasiado dependente do Atletismo que contabilizou 54
medalhas e do Boccia que com 26 ainda somos líderes mundiais. E apenas 14 nas
outras modalidades (9 Natação, 2 Ciclismo, 1 Futebol, Canoagem, Ténis de Mesa)
num total de 94 medalhas.
Sendo o atletismo o desporto
paralímpico número 1 é natural que os países apostem cada vez mais neste
desporto, pelas quase 500 medalhas em disputa. O Boccia sendo a par do goalball
a única modalidade exclusivamente para pessoas com deficiência, com uma
logística acessível têm crescido em muitos países.
Portugal em 2000 tinha os resultados
extraordinários em virtude do excelente trabalho de atletas e demais agentes
(muitos deles voluntários) nestes 2 desportos. Chegamos primeiro estávamos à
frente. Quando os outros países aumentaram a aposta nestes 2 desportos
envolvendo outros recursos, Portugal ficou na mesma, vivendo praticamente do
amadorismo e da boa vontade dos agentes desportivos.
Em muitos desportos olímpicos os
atletas dependem do governo ou de patrocinadores nacionais para serem
profissionais e não de salários de clubes ou prémios monetários em face da
performance desportiva. Se esta é a realidade do desporto olímpico,
naturalmente que no desporto adaptado ainda será pior. Sendo por isso essencial
o investimento público e privado para que estes atletas tenham as melhores
condições possíveis.
Os atletas portugueses são uns heróis
por todo o esforço apresentado e pela sua capacidade de perseverança e luta
contra adversários de topo em que muitos deles são 100% profissionais e têm
outras condições muito melhores. Só para termos uma ideia a equipa paralímpica
da Grã-Bretanha têm mais nutricionistas que a equipa olímpica.
Por tudo isto eles merecem que se traga ao
debate público a necessidade de lutarem com condições iguais aos adversários.
Esta é a única forma de os respeitar,
dando-lhes o que eles merecem. Porque eles não são menos que ninguém. Eles não
merecem apenas participar e lutar por diplomas. Este é o legado que o desporto
paralímpico está a construir, não podemos ficar para trás.


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